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sábado, 22 de janeiro de 2011

O filme "Cisne Negro" - Comentários feministas sobre a Sociedade dos Espetáculos

"A mulher é levada ao narcisismo".
Aonde vamos paradas, diante do espelho?
Se você é feminista e não assistiu o filme “CISNE NEGRO”, assista (veja on line, sem pagar nada, clicando no link) e o faça antes de ler o resto deste texto, pois apesar de não focarmos os detalhes do roteiro¹, o que nós comentaremos aqui poderá estragar o clímax da película ou a indigesta sensação de impotência que ela pode lhe provocar.
A trama¹ seria bem “clichê” se não fosse apresentada com a dubiedade necessária, já que o filme é uma metáfora da sexualidade feminina ou que se deseja de nós. Neste ponto, Darren Aronofsky é um dos poucos artistas de Hollywood que abordam o “clichê” das questões de gênero, sem clichês estereotipados.
Em “O Lutador”, Aronofsky nos mostra o que “sobra” a um homem, preso aos papeis de gênero, quando sua masculinidade (de pai/marido/amante/provedor) já não possui mais utilidade social. Em “CISNE NEGRO” ele inverte a perspectiva temática e presenteia-nos com um jogo de ilusões e espelhos que mergulham profundamente na batalha interna de toda mulher: o essencialismo da feminilidade e a loucura da transcendência humana.

A mulher como bailarina de si
A maquiagem:
Petrifica o rosto e simula a perfeição
Maquiadas, nos tornamos estátuas.
Vista pelos olhos do “outro”, é verdade que “a verdade” pode nos causar estranhamento, mas a esquizofrenia apresentada pela personagem nos obriga a compreender e identificar a “grande verdade masculina” sobre as mulheres: somos atrizes de nós mesmas. E isso não é fácil de admitir e mais difícil ainda de querer se livrar.
Ainda pequenas, obrigadas a desenvolver a dissimulação como um constante “espetáculo de aperfeiçoamento”. Isso nos torna brilhantes bailarinas de nós mesmas. Sempre com muito cuidado, andando na ponta dos pés. Somos seres humanos que, com gestos de aparente leveza, executam esforços físicos descomunais. Representar a vida exige toda uma técnica apurada. Um estudo minucioso. Toda uma retórica socialmente construída e chamada por todas nós (mulheres e homens) de “boa-educação”. Eis o que é a metáfora do balé.
Para as mulheres, dissimular pode ser a “arte da sobrevivência”. Uma estratégia desenvolvida há séculos. O olhar pelo canto dos olhos, ver e fingir que não vê. Muitas vezes, assim como a dor, a dissimulação pode causar algum prazer. Mas não é autocontrole induzido a “hipocrisia socialmente necessária as mulheres”? Fomos obrigadas a encarar a vida como um espetáculo e todo espetáculo como “realidade”, mas qualquer descontrole, descuido ou “queda”, no palco da vida feminina, é diagnosticado como “anormalidade”, “doença” ou histeria.
Eis a mentira que os homens gostam de acreditar, pois também não desejam revelar “a verdade”. Precisam da nossa hipocrisia para justificar “sua liberdade”. Seus privilégios. E também não chorarem suas perdas. Homens, existem com os privilégios. Mas, na real, a “sociedade” alimenta as grandes mentiras. Da superioridade sexual e racial, da naturalização do “sucesso econômico”, da democracia. E por isso, odeiam as feministas. Em imagem, as feministas são “todas loucas, feias ou mal-comidas”, pois na ilusão dos espelhos, somos tidas como "atrizes ruins" deste grotesco espetáculo. Ser feminista é ser mulher e não saber interpretar.

Amputação Simbólica
O orgasmo de uma mulher é tão complexo
quanto sua condição social.
Após o procedimento médico de amputação, as pessoas relatam a existência de sensações de dor, formigamento e peso do membro amputado, chama-se de sensação fantasma. É como se o membro amputado ressurgisse no corpo. Mas esta sensação desaparece com o uso de uma prótese. O alvo da destruição é “o corpo que não pode estar no próprio corpo”. Mas como é amputar a si mesma a sangue frio?
Somos alienadas do auto-afago como um trabalhador que automaticamente produz uma mercadoria. Nosso corpo é colocado como inimigo. Tudo que temos deve ser controlado. Peso, sexo e envelhecimento. No mínimo, maquiado, dissimulado, encoberto e vendido. Vivemos entre a ambigüidade da imagem e da negação da matéria. O corpo torna-se um campo de batalha. O útero, a beleza jovial e o sorriso. Devemos destruir algumas partes e outras devemos preservar. Porém nossa sexualidade está lá e continua latente como se fossemos assombradas por um fantasma que a todo custo deseja nos dominar.
Em analogia, a amputação sexual humana recai sobre a pulsão das mulheres. Nos homens, como fixação. Nas mulheres, como “extirpação”. A “imaterialidade” da vagina precisa ser “compensada”, daí surge às sensações de “poder feminino”. O desejo de despertar desejo e “o poder” de não ser tocada. O fantasma da vagina circula sobre nossas cabeças. É porque a vagina não se encontra ausente que fantasiamos ao nos tocarmos. Nossa sexualidade está lá, latente, mesmo que junto a ela não haja mais ninguém além de você mesma.
Na masturbação percebemos, por alguns segundos, a existência do corpo sexual. O sentimos fisicamente. Não é o corpo erótico desejado pelo outro, mas o corpo tocado por nós. No gozo do toque, existe a sensação de não estar em nenhum rótulo. De estar sem amarras. Mas a sensação é tão intensa e rápida que automaticamente retornamos, aos papéis de gênero, com uma pergunta: delicio-me por que sou “puta” ou devo sentir uma “puta culpa” ao me tocar? Esta culpa que nos assombra é a sensação fantasma resultante da amputação de nossa sexualidade.

Conclusão:
A mulher e a sociedade do espetáculo
É inegavel a beleza expressa neste rosto, porém esta foto
de Sebastião Salgado expressa uma "mentira" tranquilizadora.
Mostra uma criança linda, em meio a toda miséria na África.
É confortável olhar imagens assim, pois simulam uma "beleza"
que atenua a desumanidade das condições em que a pessoa
foi registrada.
Não seria a negação do mundo concreto, uma negação da própria realidade? Por que a imagem desencadeia muito mais compaixão do que a própria miséria humana vista de perto? Por que fotos de pessoas tristes ficam tão “bonitas”?
A cópia, a representação, a aparência parecem descrever a realidade com muito mais intensidade que a própria realidade. E nisso, o filme CISNE NEGRO tanto pode ser entendido como um “conto de fadas invertido”, como uma "frustrante" projeção da realidade feminina, devido a "coincidência inversa" que converte o destino da personagem Nina no oposto dos fatos recentes da vida da atriz Natalie Portman.
Nos contos de fadas masculinos, assim como na história humana, os homens encontram a transcendência na morte ou enfrentando-a. A morte por atividade é um símbolo filosófico e cultural de auto-determinação, é uma auto-afirmação que expressão “sou tão dona de minha vida que me dou o direito de determinar quando será minha morte”. 
Ao mesmo tempo é doloroso ver imagens como esta.
O apuramento técnico de Sebastião Salgado transformou
esta imagem em um fragmento de dor "muito mais palpável"
do que a "realidade", pois em todas as ruas das grandes
cidades do Brasil ou em qualquer campo de uma zona rural,
existem pessoas com a mesma expressão de angústia
e vivendo na mesma condição de misária não nos
despertam tanta empatia, comoção e humanidade
como esta foto. Este é o conceito expresso no livro
"A sociedade do Espetáculo", Guy Debord.
A cena da mutilação do ventre, da auto-esterização do útero, representa “a maturidade técnica em que um ser humano atinge o auge e encontra a morte”². Se continuasse viva, a personagem se transformaria na “princesinha”, na “queridinha da América”, aquela que conquistou como beleza, na “beleza da arte”, o sucesso e a felicidade. Seria coroada rainha e assistiria do alto a desgraça das demais mulheres, a espera do momento que outra mulher mais jovem e bonita viesse destroná-la. O que poderia surgir pra Nina depois disso?
Após a castração sexual imposta por si mesma, e pela mãe, após dissimulação exigida pelo diretor da companhia de balé, a superação de todas as suas “rivais” mulheres e ser aclamada de pé pelo “fingimento”, inserida no contexto real de sua condição feminina, ela só encontraria a completude social na maternidade. Destino fundamental de toda “mulher”³ no patriarcado.
Porém, Darren Aronofsky parece saber muito bem em que mundo nós vivemos. O desempenho magistral de Nina como Cisne Negro, não era desempenho, nem atuação. "Ela" estava vivendo todos os sentimentos e dores que culminavam no auge do “Lago dos Cisnes”. Aronofsky sabe que o mundo abandona as mulheres com o avançar da idade, depois de trancá-las, com cintos de castidade, em castelos infantilizados. Sabe que as condena a reprodução da vida e, ao que parece, ele não quis este triste destino para ela. Por isso, nunca há finais felizes em suas fábulas.
Tanto que na sociedade dos espetáculos a fantasia parece ser muito mais “concreta” do que a própria realidade. Enquanto Nina se “auto-esteriliza” e encontra a trancendencia, e na imanência, Natalie Portman engravida E infelizmente, este fato real é mais clichê do que qualquer trama presente no filme. No auge de sua carreira, Natalie Portman atingi a "completude" de toda mulher no destino biológico da maternidade. Bem que ela também poderia matar a mulher e transcender para a identidade social feminista. Mais isso seria um final feliz, um "conto de fadas". A maior infelicidade é que a gravidez deve somar ainda mais "pontos/votos" na hora dela ganhar o (merecido) Oscar de melhor atriz deste ano. Se não vencer, ao menos já terá se premiado com a compensação destinada a toda mulher.
Boa sorte a grande Natalie Portman ,em seu novo papel social de "mãe". É pena uma que neste caso, a vida negou espetáculo. A "personagem real morre" e se eternaliza, sem determinismo. Por conquistar, glória e esforço, sem "interpretação".
Texto: Ana Clara Marques e Patrick Monteiro
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¹-O “Cisne Negro” narra a história de uma bailarina obcecada pela “perfeição técnica e estética” prestes a protagonizar a peça “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky. Neste processo, existem quatro conflitos de gênero básicos: a relação conflituosa entre a mãe e a filha, a substituição da 1ª bailarina da companhia, a competição que se estabelece entre as artistas e a tensão sexual nascida em Nina e o diretor da companhia de balé.

²-Nietzsche avaliou que "O que se tornou perfeito, inteiramente maduro, quer morrer", nas mais diferentes correntes filosóficas, passando inclusive pelo existencialismo, a morte possui duas concepções básicas para humanidade: a plenificação (excluam qualquer teologia) ou a nadificação. Beauvoir disse que "A morte parece menos terrível quando se está cansado".

³-Pelas determinações essencialistas, a função social da mulher seria a reprodução da vida, ou seja, o destino biológico da maternidade. Segundo Simone de Beauvoir, presa a animalidade do parto a mulher não encontra a transcêndecia humana.

Fonte: Blog Maças Podres

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