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domingo, 16 de janeiro de 2011

Exú não pode???


Para quem acha que no Brasil não existe racismo e que a Constituição Federal é respeitada no que se relaciona à liberdade de culto.

Para quem acredita que a Lei 10.639, que estabelece o ensino da História da África e da Cultura Afro- Brasileria nos sistemas de ensino, é acatada e cumprida.

Para quem crê que o Estado é laico e independente da influência e comando de qualquer religião, aqui vai a prova de que a repressão continua e que poderes religiosos paralelos mandam mais que as Leis estabelecidas.

É importante que se saiba que a professora punida por fazer cumprir a Lei está afastada de suas funções e impedida de ministrar aulas e que a diretora preconceituosa e ignorante da Lei continua nas suas funções, dirigindo a orientação de crianças que, como ela, se transformarão em adultos cheios de preconceitos e atitudes segregadoras.

Segue o texto:

Exú não pode?

Recentemente um jornal carioca destacou o caso da professora proibida de usar o livro “Lendas de Exu” em uma escola municipal. A professora é umbandista e a diretora da escola é evangélica.

É cada vez mais comum que professores e alunos de candomblé ou umbanda sejam discriminados nas escolas.

A pergunta é: por que Jesus pode estar em um livro para o ensino religioso católico, destinado à rede pública, e Exu não pode?

Exu não entra na escola porque este país é racista, e o racismo está presente na escola.

Acredito também que estamos atravessando uma fase de avanço conservador na educação pública. A manutenção da oferta do ensino religioso na Constituição de 88, a aprovação deste como confessional no Rio, os livros didáticos católicos, a concordata Brasil-Vaticano, são vitórias silenciosas que ampliam e legitimam as circunstâncias necessárias para discriminações como essa.

A mãe-de-santo Beata de Yemanjá diz: “Pensam que o Brasil é uma coisa só e nos discriminam. Isso é racismo.”

Para o pesquisador Antonio Sérgio Guimarães, o racismo brasileiro é heterofóbico, a negação absoluta das diferenças implicando um ideal, explícito ou não, de homogeneidade (ou uma coisa só, como diz Beata).

Quando uma escola proíbe um livro de lendas africanas ela discrimina culturas afrodescendentes. Exu é negro. Um poderoso e imenso orixá negro. É o orixá mais próximo dos seres humanos porque representa a vontade, o desejo, a sexualidade e a dúvida. Porque estes sentimentos não são bem- vindos na escola? Porque a igreja católica tratou de associá-lo ao diabo e muitas escolas incorporam essa lógica conservadora, moralista e racista.

O Exu proibido afirma que este país tem negros com diferentes culturas que, se entendidas como modos de vida, podem incluir diferentes modos de ver, crer, sentir, entender e explicar a vida.

Positivo foi que muitos professores e professoras criticaram o ocorrido, o que mostra que também a escola não é “uma coisa só”. É nas suas tensões cotidianas que devemos lutar contra o racismo.

As culturas com suas religiões fazem parte da História da África. Como é que vai ser?

Pais e professores arrancarão as páginas desses livros?Ou eles já serão confeccionados mutilados pelo racimo?

Respondo com a saudação ao orixá excluído da escola: Laro oye Exu! Para que ele traga mais confusão e com ela, o movimento, a comunicação, a transformação onde reina.


STELA GUEDES CAPUTO é professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

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