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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A celebração da diversidade e a condenação da diferença: O que queremos para além das ações afirmativas?

Por Jaqueline Lima Santos*

"A Consciência Negra é, em essência, a percepção pelo homem negro da necessidade de juntar forças com seus irmãos em torno da causa de sua atuação – a negritude de sua pele – e de agir como um grupo, a fim de se libertarem das correntes que os prendem em uma servidão perpétua. Procura provar que é mentira considerar o negro uma aberração do “normal”, que é ser branco. É a manifestação de uma nova percepção de que, ao procurar fugir de si mesmos e imitar o branco, os negros estão insultando a inteligência de quem os criou negros. Portanto, a Consciência Negra toma conhecimento de que o plano de Deus deliberadamente criou o negro negro. Procura infundir na comunidade negra um novo orgulho de si mesma, de seus esforços, seus sistemas de valores, sua cultura, religião e maneira de ver a vida." (Steve Biko, 1990)

Hoje, 13 de janeiro de 2011, o que me motiva a escrever é um incomodo interior, o de não ver novas perspectivas na militância do movimento negro, embora em qualquer espaço que eu esteja, sozinha ou acompanhada, não esqueça qual o meu papel. É uma guerra interior entre aquilo que eu acredito que seja importante, e entre formas de atuar que me motive, que entre as alternativas atuais, são quase nulas. Talvez muitas pessoas, especialmente jovens, compartilhem desse meu sentimento.
Procuro algo que seja mais do que uma terapia coletiva em que as pessoas se encontram, se acham lindas, e se contentam com qualquer pouca coisa que ONG’s, Estado e instituições diversas têm a nos oferecer. Também cansei do discurso que, com o passar dos anos, se rende ao cansaço, tornando-se mais domesticado, contraditório e conciliador.
O problema é muito maior do que a forma como a maioria das instituições do movimento negro tem lidado com ele, e as vezes me parece que quem está acostumado com nada, se contenta com o pouco que, como demonstra as experiências atuais, servem para calar as nossas bocas, afinal, não há nenhuma mudança estruturante prevista, o que se contrapõe ao nosso discurso histórico de que o racismo está intrínseco as estruturas.
Torna-se repetitivo falar da nossa história para nós mesma(o)s, mas as vezes parece que, coletivamente, enquanto sujeitos políticos do movimento negro, não fomos convencidos de qual é a gênese do problema, e nem do que a história já provou que deu certo ou errado, criando uma sequência repetitiva de erros hipocritamente comemorados, então tenho minhas dúvidas se entendemos de fato o que é o racismo, mesmo vivenciando-o em nossa pele. É um erro ainda aparente compreender este fenômeno somente pelas nossas experiências individuais, que violenta nossas identidades e consciência, e se persistirmos nesse erro, continuaremos celebrando o orgulho negro, o que é um grande avanço, mas não avançaremos naquilo que eu entendo por relações de poder. A construção do orgulho negro já é uma conquista, mesmo que ainda em processo, mas só isso basta? Se assim acharmos, podemos concordar com o senso comum de que o Brasil, hoje, não é um país racista, “porque eu tenho uma vizinha negra que é linda, se afirma e faz sucesso”, “porque meu chefe me deixa trabalhar de black power”, “porque eu tenho um namorado negro”, “porque uma negra foi “protagonista” da novela” e etc.. E o que somos além disso? Quais os valores que são por nós “assimilados”?
Primeiro a colonização portuguesa, de maneira tão sutil como explícita e violenta, traçou o destino de nossas vidas durante séculos, estabelecendo um lugar para cada qual, fazendo-nos acreditar que para nós existia um limite. Um país que, marcado por uma colonização que nunca pregou a igualdade, mesmo com a passagem da população negra de “escrava” a “cidadã”, não conseguiu, através da Lei Áurea, abolir as desigualdades raciais nele existente, pois continuou operando sob o sistema de hierarquias.
O plano do colonizador ainda é operante, e nós, como usamos nossa inteligência para planejar nosso destino a longo prazo? O que eu vejo hoje é a(o)s nossa(o)s “representantes” se satisfazendo com tão pouco (cargos e turismo étnico), entregarem toda a nossa história para política de pão e circo.
Quando vejo o desespero das organizações nacionais do movimento negro frente ao que as corporações internacionais e os governos podem lhe oferecer, lembro-me da cena do filme “Besouro”, onde negros, no contexto em que, no Recôncavo Baiano, a capoeira era proibida, diante da presença do homem branco param a roda, e ao ouvirem deste último a permissão para continuar, violentam-se entre si para mostrar ao “dominador” quem é melhor, enquanto o branco debocha do auto-depreciativo entre os próprios negros. Falam tanto em controle social, e o que eu vejo é uma relação inversa, o Estado e as grandes corporações ditando a agenda dos movimentos sociais, e poucos destes se mostram combativos, a não ser que seja entre eles próprios.
O Brasil, repetindo a experiência da diáspora, é sim um país racializado. Nós falamos isso a todo momento, mas parece que nem toda(o)s entendemos este fenômeno, e muit(a)os entre nós não tem a humildade de assumir isso, o importante é aparecer, mesmo que se diga, se faça, se legitime, e se repita um monte de bobagens.
O limite da elite do poder vai até a celebração da diversidade: capoeira, feijoada, samba... ela permite sim que nós afirmemos: a(o) negra(o) é linda(o), afinal isso não muda profundamente as hierarquias que lhe sustenta durante séculos, e se essa for a nossa única reivindicação, que seja feita. O que seria de mais para ela? Reivindicar a desmistificação da diferença, porque a diferença é estabelecida a partir de relações de poder, e isso seria contrapor ideologia dominante, colocar em cheque poder, valores e costumes. Ambas, a identidade e a diferença, carregam o traço do outro, são resultantes de um processo de produção simbólica e discursiva, e estão estabelecidas dentro de um campo de relações de poder, podem servir para incluir/excluir, classificar, e etc.
As Ações Afirmativas gera um grande incomodo a elite do país, porém, ela por si só não resolve nosso problema. Embora coloque o debate sobre relações raciais em evidência, na universidade, por exemplo, continuamos sendo formados pelos paradigmas ocidentais, os mesmos que servem como operadores ideológicos da nossa exclusão. A universidade continua sendo eurocêntrica e cartesiana, fechada a novas possibilidades, e qual o grande problema? Nosso objetivo é somente formar uma elite negra que dê sustentação ao poder do “outro”, ou que possa desmantelar o racismo estruturante? (Obama é negro, mas a casa ainda é branca) Se a(o) negra(o) não tem a possibilidade de descolonizar a sua mente, como vai se despir dos paradigmas ocidentais?
Em uma sociedade em que a brancura é sinal de normalidade, humanidade e superioridade, Ações Afirmativas, sem quebra desses paradigmas, significaria a possibilidade para que, “no mundo das(o) branca(o)s”, a(o) negra(o) esteja mais perto da “civilidade ocidental” e alcance o sonho propagado pelo Show da Xuxa (branqueamento), isto porque não temos uma proposta mais ampla para combater o racismo, que proponha a desconstrução do colonialismo europeu que permeia o imaginário social, reivindicamos inclusão, mas não fazemos nada para desmistificar o desejo pelo mundo da(o)s branca(o)s, ou seja, não mexemos nos fundamentos das relações de poder (mistificação da superioridade e inferioridade).
Não ignoro os avanços das Ações Afirmativas, mas o embate não para ai. Tem quem acredite que Ações Afirmativas por si só seja a solução, que Estatuto da Igualdade Racial sem “raças” seja um avanço, mesmo que este não reconheça raça como operador ideológico, onde se localiza o ponto central do problema. Se não avançarmos no debate e embate, nas correntes ideológicas que se materializam em nossas vidas, passarão décadas e continuaremos fazendo discurso de vítimas e oprimidos.
Assim, “inclusos”, o Estado celebra a diversidade, “mas não me venha você com a sua religião, com os seus saberes tradicionais, com a sua história, valores e costumes, reivindicar terra, reparações e poder, você já conseguiu muito!”. Os movimentos negros batem palma enquanto outros riem.

*Militante do Movimento Negro Unificado, Mestranda em Ciências Sociais – Antropologia pela UNESP.

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