Você encontra aqui conteúdos da disciplina História e Cultura Afro- Brasileira para estudos e pesquisas, como também, assuntos relacionados à Política, Religião, Saúde, Educação, Gênero e Sociedade.
Enfim assuntos sobre o passado e sobre nosso cotidiano relacionado à História do Brasil e do Mundo.







Seguidores

Visitantes

sábado, 16 de julho de 2011

A CRENÇA ANCESTRAL QUE ORIGINOU A DIVERSIDADE NOS CULTOS AFRO-BRASILEIROS


O culto afro-brasileiro acompanha quase toda a História do Brasil sob as várias formas que suas diferentes origens determinaram. O Candomblée a Umbanda são os mais conhecidos.

Com a proibição de práticas religiosas pelos senhores, a complexidade das diferentes etnias e o conseqüente sincretismo dos deuses dos escravos com os santos católicos, cresceu a diversidade do fenômeno.

Esse problema cresceu ainda mais com a disseminação desses cultos nos grandes centros urbanos, o que propiciou o aparecimento de novas formas de sincretismo.

O culto afro-brasileiro toma o nome de Pajelança na Amazônia, Babacuêno Pará, Tambor-de-Mina no Maranhão, Xangô em Alagoas, Pernambuco e Paraíba e Batuque no Rio Grande do Sul, Afoxé na Bahia e Catimbó em todo Nordeste.

Os cultos nagô ou iorubá cultuam os orixás. Os jeje cultuam os voduns. Os bantos são um grupo linguístico que tem muitas religiões de acordo com a experiência religiosa dos antepassados de cada grupo. Há muitos que cultuam Zâmbi. Os adeptos do Omolocô angolano cultuam Zâmbi e os bakuros. Outros angolanos conhecem os inkices. Todos estes cultos sustentam a memória de seus povos e a fé nos mitos de origem e nas forças da natureza; cultuam seus reis, heróis e guerreiros e vários reverenciam os ancestrais do Brasil: os caboclos.

São típicos nos cultos afro-brasileiros a dança, os tambores, os pontos cantados, o transe e a iniciação dos novatos.

A dança e a música, nas culturas africanas, são funcionais, destina-se, via de regra, a cumprir deveres religiosos, não apenas de culto, mas propiciatórios, para facilitar as diversas atividades, da guerra, da caça, da agricultura etc, para celebrar ritos de passagem; em suma, está associada à vida do homem em todas as suas manifestações. Em certos casos exige máscaras ou adornos especiais. A condição de escravo impedia o negro na América de realizar todos esses deveres com suas divindades. O negro na América tinha pouco tempo e muitas vezes nenhuma liberdade para cantar e dançar. A reinterpretação que fez, estabelecendo o sincretismo religioso, não foi apenas oriunda de pontos de contato e semelhanças na invocação dos santos católicos e de todos seus Deuses, mas, por igual, um instrumento claro de defesa.

No Brasil, os cultos afro-brasileiros só começam a ter existência depois da Abolição da Escravatura, em 1888, embora vigiados, perseguidos pelo preconceito e ultrajados pela polícia.

O culto afro-brasileiro é menos verbal, é mais gesto, dança, musicalidade, oferta, é mais transe. Não cumpre um ritual escrito em livros litúrgicos; pois o próprio encontro com os orixás ou com os antepassados determina, em boa parte, a seqüência do culto. Há muito respeito nesse momento. Há ali o comportamento religioso de uma comunidade celebrante.

Durante os cultos, diante das entidades incorporadas, o povo negro guarda a memória da África e da escravidão, seus símbolos de resistência e a consciência da dignidade.

O Candomblé das diversas "nações" africanas é o paradigma dos cultos de origem africana em todo o país. É a religião afro-brasileira que mais fielmente preserva as tradições dos antepassados e a menos permeável às transformações sincréticas, embora cultue secundariamente entidades assimiladas, como os caboclos e os pretos velhos. Predomina na Bahia e tem muitos seguidores no Rio de Janeiro.

O ritual do Candomblé pode ser considerado, do ponto de vista musical, um oratório dançado, uma festa, também chamada “ordem de xirê” (brincadeira, na língua ioruba). Cada entidade - orixá - tem suas cantigas e suas danças específicas. O canto é puxado, em solo, pelo pai ou mãe-de-santo e é seguido por um coro em uníssono, formado pelos filhos-de-santo. Da cerimônia participam três instrumentos básicos na convocação dos orixás: os djembes, o agogô e o piano-de-cuia (aguê); a estes se acrescentam um adjá (no Candomblé das nações do grupo jeje-nagô) e um caxixi (nos ritos do grupo angola-congo).
Tal como se encontra na Bahia, esse Candomblé, que pode ser considerado mais ou menos ortodoxo, na realidade já se apresenta como um resumo de várias religiões trazidas pelos negros da África e incorpora ainda elementos ameríndios, do catolicismo popular e do espiritismo.

A Umbanda é religião sincrética que se originou do intercâmbio entre os escravos, os índios e o colonizador. A Umbanda mistura os orixás, a crença e a sabedoria indígenas, o catolicismo e o espiritismo e tem como filosofia a caridade e a cura. Grande quantidade de terreiros ou barracões de Umbanda estão no estado do Rio de Janeiro e Espírito Santo. A Umbanda é também praticada em terreiros encabeçados por um pai ou mãe-de-santo, que preside às cerimônias, auxiliado por um cambono. Os cânticos denominam-se pontos e, como no candomblé, têm a função de chamar a entidade, que se incorpora nos filhos-de-santo, ou cavalos. Correspondentes às nações do Candomblé, as linhas de Umbanda são diversas: linha do Congo, linha do Cabinda, linha da Costa. Como no Candomblé, os orixás se comunicam diretamente com as pessoas em poucas oportunidades; preferem fazê-lo por intermédio de entidades intermediárias, os pretos velhos ou caboclos, pela sabedoria de sua ancestralidade.

O Xangô, ainda que com características próprias, é a versão local, em Pernambuco, Paraíba e Alagoas, do Candomblé baiano. Provavelmente porque nestas regiões se concentrava um grande número de escravos “filhos de Xangô”. Xangô é também a denominação, em língua africana, do orixá jeje-nagô das tempestades, raios e trovões, cultuados em vários estados do Brasil. O ritmo do Xangô é fortemente marcado por instrumentos percussivos. A dança se caracteriza pelo aspecto guerreiro, com os braços em ângulo reto e as mãos viradas para cima.

O Tambor-de-Mina manifestação popular pela qual é conhecida a religião que os descendentes de negros africanos de origem jeje e nagô trouxeram para o Maranhão. Mesclado a outras sobrevivências litúrgicas, o Tambor-de-Mina caracteriza-se por uma série de cantos do ritual Angola-Congo do Candomblé acompanhados por três tambores, uma cabaça, um agogô e um triângulo de ferro.

Os rituais tem lugar em casas de culto conhecidas como Ilê de Mina Jeje. É uma religião de possessão, onde os iniciados recebem entidades espirituais cultuadas pelo seu pai de santo em rituais conhecidos como tambor.

Mediante o toque dos instrumentos, os iniciados, em grande parte mulheres, vestidas com roupas específicas para o ritual, dançam e incorporam as entidades espirituais. Em São Luís, duas casas de culto africano deram origem a esta forma de manifestação da religiosidade dos negros: a Casa das Minas e a Casa de Nagô. A Casa das Minas foi fundada por negras trazidas do reino do Daomé (hoje Benim), habitado por negros Mina. Nesse terreiro são recebidas entidades espirituais denominadas voduns. A Casa de Nagô, também fundada por descendentes de africanos, deu origem aos demais terreiros de São Luís, onde são recebidas entidades caboclas de origem européia ou nativa.

O Candomblé-de-Caboclo é manifestação própria da cidade de Salvador e municípios vizinhos, na Bahia, o Candomblé-de-Caboclo é uma espécie de candomblé nacionalizado, que toma por base a filosofia do Candomblé jeje-nagô. Trata-se de exemplo nítido do sincretismo religioso popular no Brasil. Registram-se nele influências indígenas e mestiças, resumindo-se os hinos especiais de cada encantado ou caboclo, cantados em português, a uma declaração de seus poderes sobrenaturais.

O Babaçuê é a versão local, em Belém PA, do rito jeje-nagô do Candomblé baiano, o Babaçuê se assemelha em muitos pontos ao Candomblé-de-caboclo. Canta-se e dança-se ao ritmo de três abadãs (tambores), um xequeré (cabaça) e um xeque (chocalho de folha-de-flandres). Os hinos denominam-se doutrinas e podem ser cantados em dialeto iorubá ou em português, segundo os espíritos com que se relacionam. Uma variedade desse rito, o batuque, tem suplantado o Babaçuê nos dias atuais.

A Pajelança (Amazonas, Pará, Piauí, Maranhão) tem como elemento gerador genuinamente o índio. As curas são levadas a efeito pelos pajés, verdadeiros “xamãs” indígenas. O instrumento básico de pajelança é o maracá, instrumento sagrado do pajé. As cerimônias acompanham-se sempre de cantos e danças para divertir os espíritos. Os cantos são melodias folclóricas conhecidas; as danças, exercícios mímicos, com rugidos e uivos imitativos dos animais invocados. Há inúmeras diferenças rituais na Pajelança, sendo mais característica nas rurais a pureza dos traços ameríndios, enquanto nas urbanas se registra uma mescla de elementos africanos, do catimbó, do espiritismo e do baixo catolicismo. Na pajelança urbana quem celebra os ritos é o pai-de-santo e não o pajé.

Uma versão da Pajelança é a encantaria piauiense e maranhense fortemente aculturada com o catolicismo popular. Na encantaria, os crentes repetem várias vezes certa quadra rogatória de purificação, após o que o pai-de-santo dança em volta da guna (forquilha central da sala), no centro de um círculo formado por todos os dançantes, que giram sobre si mesmos da direita para a esquerda, em torno do mestre, que entoa cantos (aié) para que algum moço (espírito) se aposse de seu aparelho (filho ou filha-de-santo) e cante sua doutrina, dançando em transe.

O Afoxé é uma dança cortejo ligada ao Candombé, conhecida como Candombé de Rua, típica do carnaval baiano. Após os ritos religiosos nos terreiros, onde são evocados os orixás, o grupo sai para a rua, entoando canções com palavras em língua iorubá. Para marcar o ritmo são usados instrumentos como agogõs, atabaques e xerequês. Entre os afoxés, o mais conhecido popularmente é o Filhos de Gandhi, cujos integrantes se vestem de branco e azul, com turbantes na cabeça. O primeiro afoxé baiano foi organizado em 1895 pelos negros nagôs e desfilou com roupas e objetos de adorno importados da África.

O Catimbó, cuja origem e prática podem ser encontradas em todo Nordeste, parece ser a magia branca européia, chegada via Portugal, aculturada com elementos africanos, da crença indígena, do espiritismo e do baixo catolicismo. Nele se registram cantos de linhas, mas sem nenhum instrumento musical nem bailado votivo.

O Batuque estruturou-se no século XIX, no Rio Grande do Sul e, hoje, segue fundamentos, principalmente das raízes da nação Ijexá, proveniente da Nigéria, e dá lastro a outras nações como o Jeje do Daomé, hoje Benin, Cabinda Angolano e Oyó, também da região da Nigéria. O Batuque surgiu como diversas religiões afro-brasileiras praticadas no Brasil, tem as suas raízes na África, tendo sido criado e adaptado pelos negros no tempo da escravidão. Um dos pioneiros do Batuque foi o Príncipe Custódio de Xapanã. O nome do culto foi dado pelos brancos, sendo que os negros o chamavam de Pará. É a junção de todas estas nações que se originou esta cultura ancestral conhecida como Batuque.

Nenhum comentário:

Postar um comentário