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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lula, os nordestinos, Wanessa e a Chola – Como o humor do CQC está desfigurando a face do Brasil

Por Gustavo Castañon(*)

Qual a natureza do humor? Essa é uma pergunta filosófica profunda, mas sub-valorizada. Ninguém leva a sério o humor. Mas ele é muito importante. Primeiro porque dá imenso prazer. Segundo porque sabemos que é uma das chaves da saúde psicológica e mesmo social.

Eu não tenho uma boa hipótese sobre a natureza do humor. Mas acho que o que quer que ele seja, tem a ver com o amor. É assim que, ao relatar um acontecimento que te constrangeu ou enfureceu um dia, você ri e aceita, de outro ponto de vista, sua ridícula imperfeição ou destino. Ao pensar no que na vida real pareceria grotesco, você acha graça. É como se o riso fosse um acesso de aceitação instantânea do outro, do grotesco, do infortúnio.

O irmão Caim do humor é o deboche. O deboche tem a ver com o ódio. É difícil ver essa linha divisória. Mas ninguém que debocha ri de si mesmo, como ao contrário faz o humorista. Ele só escarnece da inferioridade presumida do outro. Ele se compraz com seu sofrimento e constrangimento, sua situação de fragilidade. Ele é sádico.

Acho que a primeira vez que ficou clara pra mim essa diferença foi numa viagem de ônibus pelo interior do Perú. Quando embarquei em Puno, um grupo de jovens argentinos subiu no ônibus quebrando as cadeiras que não reclinavam, e escarnecendo da miséria daquele país. No meio da noite, entrou uma nativa peruana no ônibus. Ela vinha de um dia de trabalho, com sua filhinha pequena debaixo do braço, suada e suja. Os argentinos passaram os vinte minutos seguintes escarnecendo da mulher, chamando-a de “Chola” (nome que os nativos se dão), suja, fedorenta, dizendo que o lugar dela era no porta malas e coisas do gênero. Ela não reagia. Eles riam, riam muito enquanto se drogavam e a maltratavam. Não adiantou nada eu e minha esposa enfrentá-los. Eles passaram a chutar nossas cadeiras e rir compulsivamente. Assim, o motorista finalmente parou o ônibus num posto policial pra deter aquela escória. E foi nesse momento, com a presença do policial, que ela pediu pra descer do ônibus e falou, baixinho: “Una Chola ya no puede más ni viajar con su hija en su país”. Naquele dia os opressores riram muito. Mas só eles. Aquilo não era humor.

Quem ri de tudo, inclusive do sofrimento humano? Não aquele já superado, mas o atual, em curso? Só as pessoas completamente desprovidas de valores e compaixão, que acham que nada tem importância, nada é digno de amor, nem um filho que se carrega no ventre.

E quem não ri de nada? O fundamentalista religioso ou político é uma pessoa séria. Ele condena à morte quem ri de Maomé. Ele nunca ri de nada nem de si mesmo. Um exemplo disso é o horrível movimento do ‘politicamente correto‘, que é só um nome politicamente correto para o fascismo. Sim, não rir de nada é um perigo. Foi por isso que, num primeiro momento, a maioria dos brasileiros recebeu com um certo sentido de libertação programas como o Pânico e o CQC.

Quem não queria ver celebridades constrangidas e políticos humilhados? Pouca gente. O “Pânico”, tenho que confessar, me rendeu no início algumas boas risadas. O CQC nunca achei engraçado, mas parecia relevante. Aquele “humor” importado da Argentina, baseado na agressão e humilhação (eventualmente de gente que parecia merecer), não me fazia rir.

Mas esse formato logo começou a incomodar. Lembro de quando foram escarnecer dos jogadores da seleção italiana que acabava de ser eliminada da Copa. Ouviram de Camoranesi uma resposta lacônica: “São todos putos, os brazucas. Como diz Maradona”. Alguma coisa estava muito errada. Ele estava mesmo falando de nós, brasileiros?

Começou a saltar aos olhos o vazio de grande parte das “matérias” do CQC (com a exceção de algumas denúncias relevantes), baseadas na humilhação pura de figuras públicas. Filhos bem alimentados e bem educados da elite paulistana humilhando alguns políticos corruptos sim, mas também políticos ignorantes, celebridades, cidadãos comuns.

O sucesso tornou-os ainda mais ousados. Principalmente Rafael Bastos. Ele, em nome da liberdade de expressão, começou a fazer “piada” com mulheres estupradas, órfãos no dia das mães e finalmente pedofilia. Ele podia tudo, afinal de contas, conta com uma poderosa rede de proteção social e é o homem “mais influente do Twitter”.

O “humor” do Pânico, CQC, Rafael Bastos e Danilo Gentili não difere em nada do processo de bullying que é tão combatido nas escolas. O sofrimento da vítima só compraz ao perverso. Exemplo típico de “bullying” televisivo era o quadro “sandálias da humildade”, que a atriz Carolina Dieckmann, com coragem e dignidade, enterrou. Hoje até acho uma pena, pois o Pânico tinha que estar agora atrás de Bastos, para fazê-lo calçá-las e pedir desculpas a Wanessa Camargo. Mas ele simplesmente não é capaz disso.

Só podia dar no que deu. Esses “humoristas” se tornaram porta vozes de uma parte da juventude brasileira de classe média alta que é terrivelmente egoísta e insensível. Gente que papagaia “corrupto”, “corrupto” mas não tem qualquer tipo de ativismo político ou social. Gente que usa as redes sociais para dizer que nordestino tem que ser afogado porque tira o seu lugar na universidade, que faz proselitismo do deboche e escarnece de graves doenças. Não a de Rafael Bastos, claro, mas do câncer de Lula, um homem que dedicou sua vida a lutar pelos humilhados e a tentar melhorar a vida dos outros.

O que há de comum entre Lula, Wanessa, os nordestinos do ENEM e a Chola, é que eles vêm de um estrato social diverso daquele desses jovens. Eles estão cruzando fronteiras que as pessoas de bem desse continente, como Lula, estão ajudando a apagar. Eles estão ocupando um espaço que esses adolescentes não se sentem capazes de ocupar por valor próprio.

Sou totalmente a favor da liberdade de expressão, e contra qualquer tipo de crime de opinião. É claro que liberdade de opinião não é liberdade de calúnia. As pessoas têm o direito de falar tudo o que querem. Mas tem também o dever de escutar tudo o que não querem. E democracia é ainda mais que isso. É se engajar na vida cotidiana para defender o que acha certo nos seus cinco metros de chão. Debochar, não é defender um ponto de vista. Debochar é ser o vilão que humilha o gordo na escola, o trabalhador no ponto de ônibus, a Chola em seu próprio país.

Esse humor importado está desfigurando o rosto do Brasil, do humor brasileiro, de nossa benevolência e cordialidade natural. E não para mudar as coisas, mas só para fazer dinheiro e rir da desgraça alheia. O nível de degradação moral em que estamos é realmente muito profundo. E para nossa sociedade ter alguma chance de sobrevivência, essas pessoas, que não parecem ter a capacidade de aprender a ser boas, têm ao menos que aprender a ter vergonha de serem más.

*Gustavo Arja Castañon é doutor em Psicologia e professor de Filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora. Colabora com o “Quem tem medo da democracia”, onde tem a coluna “Non abbiate paura“.

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