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terça-feira, 4 de outubro de 2011

África: reparar ou recolonizar?

Por Nelma Cristina Silva Barbosa

Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano (IF Baiano)



Brasil e África ensaiam atualmente uma aproximação por meio da Ciência e Tecnologia, instrumentos eficazes para a cidadania e autonomia dos povos. Desde o governo Lula essa relação tem o desafio da reparação dos danos causados pelo tráfico de seres humanos. A Educação tornou-se hoje um dos eixos dessa política, especialmente através da cooperação internacional dos institutos federais de educação, ciência e tecnologia, criados em 2008, e que já são 38 ao todo.

Em nosso estado temos o IFBA (antigo Cefet-Ba) e o IF Baiano (reunião das antigas agrotécnicas federais e das Escolas Médias de Agropecuária da Ceplac – EMARC). Ambos tem sido procurados por países como Angola e Camarões, que estudam a replicação do novo modelo brasileiro de educação profissional. Mas como se dará essa cooperação se o nosso paradigma de desenvolvimento científico é eurorreferenciado e não aceita as contribuições de outras civilizações?

O conhecimento contribui para a formação de uma sociedade justa. Então, por que ainda não conseguimos construir pontes entre os diferentes povos para dissolver as disparidades econômicas e sociais? O racismo, invisibilizado, entranhado em nossas práticas educacionais é uma das causas. Nossos diplomas nos tornam incapazes de lidar com outros modos de vida. Nós nem reconhecermos a inteligência indígena que, por exemplo, manipula há séculos o meio ambiente, a biotecnologia... Esses saberes são excluídos da educação formal.
No passado, africanos trouxeram tecnologias associadas a elementos essenciais à vida colonial como o sabão, a tecelagem, uso da madeira e do couro, técnicas de construção, entre outros. As oficinas de carpintaria, ourivesaria, metalurgia, siderurgia e de olaria tiveram mestres africanos. Culturas agrícolas como as da cana-de-açúcar e do café (uma planta etíope), assim como a mineração não teriam se desenvolvido e sustentado a economia brasileira se não fossem os domínios técnicos dos africanos. Pesca, ouro, café e cana exigiam aplicações tecnológicas sofisticadas que constituíam sistemas complexos de produção. Milho, algodão, inhame o dendê também eram plantas amplamente cultivadas no continente africano. Mas apagamos este dado histórico e nos apropriamos de imagens negativas da África e de seus descendentes.

Reproduzimos na intimidade o que a “ciência” (racista) daquele tempo pregava: a inferioridade de indivíduos não-brancos em todos os sentidos, inclusive no intelectual. A expressiva presença negra e mestiça era a causa do atraso do país, concluía a elite nacional.
Em fins do século XIX e início do XX, uma política de embranquecimento foi implantada pelo governo brasileiro: o estado passou a estimular a vinda e permanência de estrangeiros brancos, em sua maioria analfabetos e sem qualificação profissional. À estes, oportunidades de trabalho remunerado, terra e educação. À população subalternizada (negros e mestiços), restou a marginalização e miserabilidade. Sufocaram-se no trabalho escravo e na mentalidade racista educacional avanços científicos para toda a humanidade. As estatísticas de hoje comprovam o resultado nefasto disto: profundas desigualdades sociais baseadas no racismo.

A ciência ainda hoje tem um poder teológico, que dita verdades, e embora se diga neutra e universal, ela é perceptivelmente branca, heterossexual, eurocêntrica e cristã. Como garantir que essa reaproximação da África com o Brasil será isenta do nosso desejo da recolonização pelo viés do conhecimento?

Os institutos federais serão, em breve, os maiores responsáveis pela Ciência e Tecnologia do Brasil. Porém, em nenhum deles são aplicadas as Leis Federais 10.639/03 e 11.645/08 e o Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o ensino da História da África e Cultura Afrobrasileira e Educação das Relações Etnicorraciais. Isto reflete, portanto, que a produção do conhecimento, não é dissociada dos conflitos sociais e raciais. Ela está bem no meio, delineando-se pela disputa de poder entre os grupos humanos; podendo até reproduzir abomináveis práticas de dominação.

Artigo publicado no Jornal A Tarde 29 de setembro de 2011

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