Você encontra aqui conteúdos da disciplina História e Cultura Afro- Brasileira para estudos e pesquisas, como também, assuntos relacionados à Política, Religião, Saúde, Educação, Gênero e Sociedade.
Enfim assuntos sobre o passado e sobre nosso cotidiano relacionado à História do Brasil e do Mundo.








Seguidores


Visitantes

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

XXVI SIMPÓSIO NACIONAL HISTÓRIA


ANPUH 50 anos
São Paulo, 17 a 22 de julho de 2011.
Universidade de São Paulo (USP)
Cidade Universitária

ANPUH 50 ANOS: Comemorações

Em 1961, em reunião na cidade de Marília, foi criada a ANPUH - Associação Nacional dos Professores Universitários de História, hoje transformada na Associação Nacional de História, pois a entidade se abriu para a filiação de todos os profissionais de História, inclusive aqueles que atuam no Ensino Fundamental e Médio, e nas instituições voltadas ao Patrimônio Histórico. Esta entidade, portanto, está completando no ano de 2011, 50 anos de existência, que serão comemorados quando da realização de seu XXVI Simpósio Nacional de História, evento tradicionalmente promovido por esta Associação, o qual ocorrerá entre 17 e 21 de julho de 2011, na cidade de São Paulo, nas dependências do campus da Universidade de São Paulo.

A palavra comemorar vem do latim commemorare e significa trazer a memória, fazer recordar, fazer lembrar, solenizar recordando. A comemoração, portanto, se relaciona com o campo da memória, da memória voluntária, aquela em que se convoca à lembrança, em que um evento, uma solenidade convoca à recordação de um fato, de um feito, de um evento, de um acontecimento, de uma data, de um personagem. A comemoração tem, pois, a finalidade de provocar a recordação e de, solenizando uma ocasião, forçar a lembrança, fazer lembrar algo que seria individual ou coletivamente relevante, que deveria ser inesquecível.

Nós, historiadores, costumamos lidar com os artefatos da memória, por isso, as comemorações nos interessam, também estão afeitas ao nosso campo. Como sabemos, a historiografia se relaciona de uma maneira crítica com as diversas formas e versões das memórias, entre elas os eventos comemorativos. Assim, faremos da oportunidade em que comemoraremos os 50 anos de fundação da entidade máxima de representação acadêmica e política dos historiadores, um momento privilegiado de reflexão sobre os vários sentidos, significados e, inclusive, implicações políticas do comemorar, em nossa sociedade e em nosso tempo, bem como em outras sociedades e em outros momentos históricos.

Convidamos a todos os profissionais da área da história ou nela interessados para, de modo solene, durante o próximo Simpósio Nacional, lembrar o percurso de nossa Associação, suas lutas, conquistas e derrotas e nos debruçar sobre sua memória, sempre de modo crítico e questionador, para que ela possa dar novos passos no sentido de sua consolidação institucional.

Comemorar significa a elaboração de uma dada versão do passado, daquilo ou daquele que é lembrado (e esquecido); o ato de comemorar implica fazer escolhas por dadas versões, por dados significados daquilo que se comemora; implica também, como toda atitude de memória, a produção de esquecimentos, de silêncios, de omissões. Convidamos, portanto, a que venham a São Paulo comemorar o cinquentenário de nossa entidade, mas que venham fazê-lo do melhor modo, que é exercendo a nossa própria atividade, não abrindo mão de nossa obrigação social de sermos analistas críticos das memórias em todas as suas formas de elaboração e difusão. Enfim, comemorar indagando sobre os sentidos políticos e sociais desta prática, nos diferentes contextos e nas diferentes temporalidades em que se deram e em que se dão esses atos de evocação. Festejar, solenizar sem abrir mão da atividade de reflexão sobre as implicações do ato comemorativo. Portanto, vamos todos juntos festejar e pensar!

Fonte: ANPUH

A difícil condição sexual da Mulher Negra na África do Sul, Haiti e Brasil.

A pedido da companheira Isolda Natividade fizemos uma nova pesquisa temática sobre feminismo negro. Segundo a Isolda, o motivo da necessidade é a coisificação que sofrem as mulheres negras no carnaval carioca (e brasileiro). Assim, elaboramos um estudo que agrega parte da condição da mulher negra dentro de três países diferentes (África do Sul, Haiti e Brasil), e em qual é o principal patamar de cada um no que consiste a violência sexual.

Na África do Sul:
Aids e “estupro corretivo” são questões de gênero
Nontombi Tutu
Se não bastasse o fato da segregação racial (apartheid) ainda ser muito forte na África do Sul, a condição das mulheres negras é ainda mais vulnerável quando se coloca em questão os crimes sexuais.

Em uma entrevista dada a revista IstoÉ, a ativista Nontombi Tutu¹ revela que (assim como proferia Simone de Beauvoir, ao analisar a condição de “ser mulher” numa sociedade que universaliza o conceito de ser humano como “ser homem”) predomina na África do Sul a determinação de que ser mulher negra é...
ser considerada uma cidadã incompleta e menos ser humano do que as outras pessoas(...)”. E sentencia que a “África do Sul continua sendo um país extremamente patriarcal. A ideia de que o homem tem o direito de fazer o que achar que é correto com sua esposa, suas filhas e com as outras mulheres da sociedade ainda é muito forte . Por isso, as taxas de violência doméstica e sexual são altíssimas. ”


Dadas as devidas especificidades do machismo, também existe nos países da África uma forte rejeição masculina ao uso de preservativos (algo não muito diferente do que ocorre no Brasil).
Segundo Nontombi Tutu:

“(...)além de ser um problema de saúde pública, a pandemia de aids também é uma questão de gênero porque as mulheres são infectadas por seus parceiros e têm desenvolvido a doença mais cedo do que os homens. O impacto social disso é enorme. Há muitas mulheres criando netos ou filhos de vizinhos porque os pais das crianças morreram em decorrência da aids.”


Ao analisar o patriarcado sulafricano, a partir dos comportamentos observados em sua vida, Nontombi exemplifica em que condições a mulher sulafricana cresce (fica bem fácil de nos identificarmos com a situação geral das mulheres no Brasil) dentro de uma família/comunidade:

“(...)O meu avô dava muito mais importância para o meu irmão do que para mim e para as outras netas. Isso pode parecer irrelevante hoje, mas quando eu era pequena não era. O que acontecia na minha casa era comum em toda a comunidade. Nas escolas, os meninos eram encorajados a agir com franqueza e ser comunicativos. Mas se as meninas tivessem as mesmas atitudes eram consideradas mal-educadas. Certas características que eram vistas como positivas nos meninos eram questionáveis nas meninas”.

Todavia, a situação da sexualidade das mulheres na África do Sul fica mais grave, pois além do racismo e da epidemia de Aids, se lá a mulher for lésbica. Sua condição a torna vulnerável frente as doenças e diante da violência sexual, aumentam com uma pontência de ódio e intolerância ainda maior do que vem ocorrendo com gays no Brasil.

Já escrevemos aqui sobre a apologia ao estupro...
Millicent Gaika
(que os patriarcas denominam de “estupro corretivo”). Porém, na África do Sul estuprar lésbicas tornou-se mais do que uma apologia.
O estupro de mulheres lésbicas faz com que ativistas sul-africanas arrisquem as suas vidas na luta pela coibição de tal violência.
Uma petição de nível mundialem busca de assinaturas on line, clique no link para assinar, esta ocorrendo para ser destinada ao presidente do país africano Jacob Zuma e ao Ministro da Justiça para que ambos condenem publicamente o “estupro corretivo”. Além de criminalizem as praticas contra o estupro e a homofobia no país.
O caso que gerou a repercussão mundial foi da ativista lésbica Millicent Gaika (nas duas fotos). Ela foi atada, estrangulada e estuprada repetidamente durante um ataque no ano passado.
Segundo relatos de Millicent Gaika:
"Ele tirou minha roupa e me derrubou na cama. Ele estava me segurando para de cabeça para baixo, sufocando-me com o fio e empurrando as mãos no meu pescoço. Ele ameaçou me matar e jogar meu corpo no rio, eu pensei que ia morrer”.

E o estuprador ainda disse para ela:
"Eu sei que você é lésbica. Você não é um homem. Você acha que você é, mas eu vou mostrar a você é uma mulher. Eu vou fazer você ficar grávida, vai ter que carregar um bebê meu”.


A África do Sul é reverenciada globalmente pelos particulares esforços de Mandela contra e pós-apartheid. Foi o primeiro país a proteger constitucionalmente cidadãos da discriminação baseada na sexualidade. Entretanto é a capital do estupro do mundo.
Segundo a ONG local Luleki Sizwe tem registros de mais de um “estupro corretivo” por dia, além do que ¼ das meninas sul-africanas serem estupradas antes de completarem 16 anos e que 62% dos meninos, com mais de 11 anos, acreditam que forçar alguém a fazer sexo não é um ato de violência. Mas não devemos nos espantar, pois a impunidade que predomina por lá é igual aos casos em que a Lei Mª da Penha se enquadra. Na época sua denúncia conquistou 140.000 assinaturas, forçando o Ministro da Justiça a responder ao caso em rede nacional.

No Haiti,
As mulheres são estupradas em acampamentos de desabrigados
Saiu semanas atrás na BBC e no G1, o resultado de um relatório divulgado no dia 06 de janeiro de 2011, que segundo a Anistia Internacional, dentro dos campos de refugiados do Haiti andam ocorrendo altos índices de estupros e violência sexual com as haitianas.
E ai nós nos perguntamos, mas estes acampamentos não são protegidos pelas “forças de paz”, inclusive as forças militares brasileiras financiadas por nossos impostos? Ou temos que procurar mais caroços neste angú?
Segundo o pesquisador da Anistia Internacional no Haiti, Gerardo Ducos, “gangues armadas atacam quando querem porque os bandidos se sentem seguros, já que há pouca chance de que sejam punidos, (...) a destruição de postos policiais e tribunais no país dificultou a denúncia e a punição destes crimes”, pois “o policiamento dos acampamentos é escasso e muitas vítimas de estupro dizem ter ouvido dos policiais que 'eles não podiam fazer nada' após comunicá-los dos ataques”. Mais de 250 casos de estupro foram registrados 5 meses após o tremor de terra.
Segundo uma das vítimas, “Suzie”, nome informado, “ela e uma amiga foram vendadas e estupradas por homens armados, que rondam os acampamentos, diante de seus filhos na madrugada do dia 8 de maio de 2010’. E depois que eles saíram, eu não consegui fazer nada, não tive nenhuma reação. Mulheres vítímas de estupro deveriam ir ao hospital, mas eu não fui porque não tinha dinheiro e não sei onde há uma clínica que oferece tratamento”.
Saibam as Maçãs Podres que tanto a Anistia Internacional quanto a BBC e o G1 “neglicenciam” fatos que comprovam que as “forças de paz” da ONU não se encontram lá no Haiti para proteger a população, mas para treinamento de guerra, gasto de verba pública e renovação do estoque das munições militares (pois diversos massacres já foram denunciados por ativistas e nada de efetivo foi feito ou anunciado na grande mídia).
Desde 31 de maio de 2004, o Brasil se encontra presente nesta missão no Haiti, inclusive exercendo o papel de comando das “forças de paz” (1 de junho de 2004) chamadas de MINUSTAH. Acusações de massacres, torturas e assassinatos já foram denunciadas nestes anos, porém pouca mídia se volta para estes casos. Numartigo minucioso, o históriador Marcelo Carreiro denúncia e relata as atrocidades da missão de paz no Haiti.
Em setembro de 2004, por exemplo, ocorreu o primeiro relato de um brasileiro acusado de estupro – e inocentado por falta de provas. Desde fevereiro de 2005, soldados paquistaneses são causadores de todo tipo de violência sexual e estímulo a prostituição. 111 soldados do Sri Lanka foram expulsos por acusações semelhantes. Contudo, como soldados de “capacetes azuis” possuem imunidade, qualquer expulsão não é garantia de punição.
Em maio de 2008, a ONG Save the Children publicou um relatório sobre abuso sexual de crianças por tropas da ONU, no Haiti inclusive. Nele, dois relatos são especialmente chocantes: "Eu tenho algumas amigas que têm ido para a cama com eles. Algumas delas são convidadas a dar-lhes um show lésbico, e elas são pagas para isso. " (Menina, Haiti) e "Quem iria saber? Nós não iríamos avisar a polícia porque eles têm medo dos soldados da paz e eles não podem fazer nada. Enfim, eu ouvi que a polícia faz esse tipo de abuso também. " (Menino, Haiti).
Elaborada, em primeiro lugar, para que o Brasil pudesse conseguir assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, e apesar do ufanismo apresentado na mídia sobre a atuação militar brasileira no Haiti, a pretensa ação humanitária é desastre (se não dizer um “genocídio eugenista”).
Entretanto... a missão de paz ganhou contornos de treinamento militar, logo que o exército mapeou o local.
O especialista em assuntos táticos e de segurança nacional da Rede Globo de TV, o ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel (autor do livro Tropa de Elite) descaradamente afirmou no Bom Dia Brasil que “as forças armadas do Brasil se encontram plenamente preparadas para ‘ocuparem’ os morros do Rio, pois estas regiões apresentam uma logística muito semelhante ao Haiti”. Veja imagens das tropas brasileiras em ação no Haiti e compare com as cenas que você viu no Brasil. O pior é que esta linha de raciocínio não é só dele, outros "especialistas" confirmam tal afirmação.
Fora todo o jogo político, existe a questão do financiamento militar. Até 2009 a MINUSTAH teve até um custo total de US$ 2.176.772.000, e o Brasil até arcou com gastos projetados de R$574.914.065,51 – excluindo-se as doações.
Agora as perguntas se tornam respostas, como poderiam as "tropas de paz" resguardar a integridade sexual das haitianas (e de toda a população daquele país) se estas mesmas tropas foram as primeiras a serem acusadas de violentar aquele povo?
Não acreditamos que todos os soldados que lá estejam são torturadores, estupradores e assassinos, mas a histórica realidade do exército e do homem brasileiro (e mundial) não contradiz a veracidade dos atos denunciados. E nem a política de interesses econômicos e militares dos países envolvidos demonstra uma só dúvida sobre os motivos da invasão de forças estrangeiras por lá. Quando nos perguntamos o quanto o governo nacional gastará no auxílio aluguel dos desabrigados das chuvas, se percebe o quanto vale a ocupação no Haiti. É como dizia aquela música: "o Haiti é aqui" (e o Brasil é um outro Haiti).

No Brasil:
a Babilônia Carnavalesca e a outra mística feminina
Caras Maçãs Podres, nós temos que ser francas diante desta questão, a condição em que as mulheres negras se encontram tem uma grande contribuição de nós, mulheres brancas. Ao final do processo da escravidão, quando os negros foram os expulsos do engenho, os senhores e senhoras da casa grande decidiram que não colocariam nenhuma outra pessoa dentro da residência que não fossem as próprias escravas que serviam de amas-secas.
É válido lembrar que se hoje mulheres brancas e liberais brasileiras podem gozar de independência econômica e autonomia intelectual, foi preciso que babás e empregadas domésticas negras ficassem presas aos grilhões do cuidado de suas casas, em detrimento de sua própria vida. Eis que os dois primeiros modos de arrimo econômico da comunidade negra foram o trabalho doméstico e a prostituição. Partimos deste ponto para explicar como se originou a coisificação sexual e prostituição simbólica que são impostas as mulheres negras dando à questão racial a devida importância.
Historicamente...
Imagens do Livro de Gilberto Freyre
"Casa Grande e Senzala em HQ" ...
era comum nos centros urbanos que nós mulheres negras fossemos forçadas a trabalhar como “escravas de ganho”, ou seja, propriedade de pequenos comerciantes, e não de latifundiários, que no Brasil imperial cobrava-lhe uma cota diária sobre a venda de seu corpo. Como nesta época, ainda existiam poucas mulheres brancas no Brasil e as negras serviam para aliviarem as necessidades sexuais dos machos que não possuíam escravas e nem esposas. Além disso, dada a forte cultura cristã, era negado a qualquer mulher branca o direito do prazer sexual, o que obrigava as mulheres negras se dissimularem lascivamente na hora do coito pago. Foi a partir desta condição histórica que se desenvolveu no Brasil o mito da sexualidade da mulher negra como “boa de cama”.
recomendado pelo MEC para discutir as
questões étnicas brasileiras, o livro mas-
cara o modo violento em que as relações
sexuais interraciais ocorreram no Brasil,
dizendo que tanto índias como negras
se encontravam "abertas e dispostas" as
relações sexuais impostas pelos os
colonizadores brancos portugueses.
Com o fim da escravidão, evidenciada em forma de exaltação do discurso, coube a produção intelectual brasileira, de Gilberto Freire a Jorge Amado, de Aluizio de Azevedo a José Lins do Rego, passando por Manuel Carlos, a manutenção da relação de raça e exploração da sexual. De Gabriela cravo e canela, as representações de Xica da Silva ou Zilda (personagem representada pela atriz Roberta Rodrigues, na novela Mulheres Apaixonadas) as personagens negras são descritas de maneira idealizada, como eróticas, faceiras ou objetos sexuais.
Cheias de mística naturalista, no imaginário brasileiro, foi elaborada uma ideologia que justificasse o mito sexual da mulher negra. Nesta condição a mulher negra representa “uma Eva sem Adão”, onde, subjugado pela sua condição de escravo, o homem negro é descrito ao imaginário popular como cafetão de suas mulheres. E complementar a esta criação, as mulheres negras encontrariam nos homens brancos “o príncipe encantado dos contos de fadas”, pois sendo ele representante da aristocracia/burguesia é o único capaz de salva-la de sua condição miserável econômica.
Na novela Mulheres Apaixonadas,
de "Papai Manoel Carlos" "Zilda" era
uma empregada doméstica que tinha a
função de desvirginar o personagem
"Carlinhos", assim como ocorre o
personagem homônimo do Livro"Menino
de engenho" de José Lins do Rego
Na escala da classificação hierárquica dos corpos, imposta intelectualmente pelas elites brancas do Brasil, houve uma necessidade do “embranquecimento” de nós mulheres negras. A mulher negra mestiça então passa a ser definida como “mulata”, é descrita como naturalmente sensual e bonita, enquanto a “mulher negra mais característica” é descrita como feia, maldosa e representante do trabalho braçal. Personagens que se encaixam neste exemplo são a “Isaura” (naturalmente bonita) e “Escrava Rosa” (má e ousada), do livro Escrava Isaura de Bernardo Guimarães. Tudo isso ocorreu por que a elite brasileira temia que uma revolta negra exterminasse a população branca, após ser lançada para fora dos muros do engenho.
Segundo Foucault,
...toda produção intelectual cria um discurso de poder que força as pessoas a se relacionarem e se comportarem em conformidade com este discurso. Com isso, as pessoas acabam não entrando numa “crise existencial” ou um questionamento mais profundo de sua condição, pois se sentem integradas a papeis sociais que lhes são ideologicamente determinados. É assim que a sexualidade da mulher negra nos é socialmente apresentada, ao mesmo tempo, uma representação erótica do “permitido” e do proibido, pois a função dos dispositivos sexuais de poder é transferir para o corpo e a carne, o modus operant do controle social.
Sendo o carnaval a festa da carne, nós mulheres negras, representantes de outra mística feminina, acabamos por ser “eleitas” como o principal símbolo da cultura da “não existência do pecado do lado de abaixo do equador”. A nossa anatomia foi leiloada e passou a representar a imanência da mulher brasileira e confirmar nossa diferença sexual frente a representação do homem brasileiro.

O feminismo negro e a outra "universalização" das mulheres
Somos descritas como aquela “submulher” que serve de oposição ao ideal do descendente europeu de “fêmea fria”. A bunda grande em oposição ao seio farto. Porém, ainda assim, seja como bunda ou seio, nossa condição de objeto sexual é uma elaboração complementar do corpo feminino como propriedade masculina. Segundo Sueli Carneiro existe nas Américas uma condição histórica que determina “a relação de coisificação dos negros em geral e das mulheres negras em particular”. A condição binária do estupro e da prostituição, ou seja, “a apropriação social das mulheres do grupo derrotado” é um dos fatores primordiais do patriarcado, e foi através destas duas condições que se construiu a hipersexualização da mulher negra.
Drª Sueli Carneiro
Como ideologia somente, o mito sexual da mulher negra não se sustenta sem a divisão econômica e racial que atravessa toda a questão citada acima, na burguesia, a sexualidade não encontra a mesma dupla moral imposta às classes populares. O permitido (prostituição simbólica e naturalização da violência sexual sobre as mulheres negras) e o proibido (castração da sexualidade branca) encontram-se complementares, apesar de opostos, pois é a contradição sustentada sobre as mulheres que mascara a opressão sexual de gênero na qual somos todas, objeto de manipulação masculina.
No fundo a coisificação hipersexual da mulher negra é uma evoluida variação da histórica exploração sexual das mulheres imposta pelo patriarcado, pois evita os gastos da prostituição instituida e faz com que os homens não incorram na punição designada pelo ato estupro. Como escreveu Sueli Carneiro:

“Enegrecer o movimento feminista brasileiro tem significado, concretamente, demarcar e instituir na agenda do movimento de mulheres o peso que a questão racial tem na configuração, por exemplo, das políticas demográficas, na caracterização da questão da violência contra a mulher pela introdução do conceito de violência racial como aspecto determinante das formas de violência sofridas por metade da população feminina do país que não é branca; introduzir a discussão sobre as doenças étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre a população negra como questões fundamentais na formulação de políticas públicas na área de saúde; instituir a crítica aos mecanismos de seleção no mercado de trabalho como a “boa aparência”, que mantém as desigualdades e os privilégios
entre as mulheres brancas e negras. (...) A utopia que hoje perseguimos consiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade. Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcançar a igualdade de
direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero. Esse é o sentido final dessa luta”.

Fica agora a tradicional pergunta final das Maçãs Podres:
depois de lerem tanto sobre a rejeição do uso do preservativo, estupros "corretivo" em companheiras lésbicas, do uso de estupros como arma de guerra, hipersexualização do corpo feminino (em especial, da mulher negra, pois desde a escravidão usam nosso ventre para produzirem escravos sem custo) será que alguma mulher ainda não acredita que a questão do controle sexual das mulheres e da gravidez feminina não é a tática fundamental dos machos de nossa espécie pra nos manter na condição de cativas?
Vão pensando ai...


Viva o movimento feminista!
Texto: Ana Clara Marques e Patrick Monteiro
______________________________________
¹-Nontombi Naomi Tutu, 50 anos, lecionou em universidades como a de Cidade do Cabo, na África do Sul, e de Hartford e Connecticut, nos Estados Unidos. Atualmente.,Ela é consultora de ONGs internacionais que combatem a violência contra a mulher e dão suporte para famílias devastadas por doenças como aids e câncer em países africanos.

Fontes:

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Por uma infância sem racismo


POR MARIE-PIERRE POIRIER


A criança, ao vivenciar esse cotidiano de desigualdade, tem a percepção de que negros, brancos e indígenas ocupam lugares diferentes


O Brasil é formado por muitas cores, vindas de quase todas as regiões do mundo. Essa combinação de diferentes povos e culturas é, sem dúvida, uma característica da população brasileira.
Mas, se essa diversidade é uma riqueza, por que ainda persistem desigualdades nas oportunidades?
Com o crescimento econômico brasileiro das últimas décadas, o analfabetismo caiu, a população tornou-se predominantemente urbana e o sistema de ensino superior passou por uma grande expansão.
Em geral, as desigualdades de renda diminuíram, resultado de políticas salariais e de transferência de renda aliadas a forte política de proteção social e expansão industrial. Mesmo assim, as desigualdades raciais persistiram e, em alguns aspectos, continuam críticas.
Embora as políticas públicas no país tenham sido construídas para todas as crianças, ainda não foram universalizadas em seus efeitos.
Estudos socioeconômicos e análises do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) mostram que os avanços alcançados não conseguiram ainda gerar impactos suficientes nas situações de desigualdades da população -sobretudo de crianças, adolescentes e mulheres negras e indígenas. A falta de acesso a serviços impõe obstáculos a negros e indígenas mesmo antes do nascimento.
Apenas 43,8% das grávidas negras têm acesso ao mínimo de sete consultas pré-natais, indicador que entre as brancas é de 72,4%.
Tal fato produz um efeito imediato e devastador na vida da criança.
Um bebê negro tem 25% mais chance de morrer antes do primeiro aniversário do que uma criança branca. Essa desigualdade é mais assustadora entre crianças indígenas, que têm duas vezes mais chances de não sobreviver aos primeiros 12 meses de vida em relação às crianças brancas.
O racismo também compromete o direito de aprender. Uma criança indígena tem quase três vezes mais chance de estar fora da escola do que uma criança branca. Da mesma forma, do total de 530 mil crianças de sete a 14 anos que não estudam, 62% são negras (Pnad, 2009).
Na adolescência, encontramos uma das faces mais cruéis do impacto do racismo. O Índice de Homicídios na Adolescência (IHA) mostrou que um adolescente negro que vive nas cidades com mais de 100 mil habitantes tem 2,6 vezes mais risco de morrer vítima de homicídio do que um branco.
Quando se fala em pobreza, a iniquidade segue o mesmo perfil. No país, 45,6% das crianças vivem em famílias pobres (renda per capita de até meio salário mínimo). São 26 milhões de crianças nessa situação. Dessas, 17 milhões são negras.
A análise segundo a cor de pele confirma a desigualdade socioeconômica e revela uma profunda desigualdade racial. Entre as crianças brancas, a pobreza atinge 32,9%; entre as crianças negras, 56%.
As estatísticas oficiais mostram uma situação de desvantagem e exclusão que tem reflexos muito concretos na vida de crianças e adolescentes. A criança, ao vivenciar esse cotidiano de desigualdade, tem a percepção de que negros, brancos e indígenas ocupam lugares diferentes na sociedade.
Por isso, torna-se fundamental uma socialização que desconstrua essa percepção, contribuindo dessa forma para mudar a realidade.
A campanha que o Unicef acaba de lançar promove a reflexão sobre essas disparidades raciais. O objetivo é alertar a sociedade sobre o impacto do racismo na infância e na adolescência e estimular iniciativas de redução das desigualdades.
Não podemos aceitar que a cor da pele determine a vida de crianças. Afinal, qual sorriso é mais bonito? Qual vida vale mais? Reconhecer e lutar contra o impacto do racismo na infância é condição primordial para uma sociedade que deseja garantir a igualdade de oportunidades e a valorização da diversidade para todos.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

ONU Mulheres define seu plano de ação

(Nova York, 25/01/2011) - A Diretora Executiva da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), Michelle Bachelet, definiu um plano de ação para 100 dias, abrangendo um amplo espectro de questões, desde o apoio a parceiros nacionais até a promoção da coerência dentro do Sistema das Nações Unidas. “A força das mulheres, a indústria das mulheres e a sabedoria das mulheres são o maior recurso inexplorado da humanidade,” disse Bachelet, ex-Presidenta do Chile, durante a primeira sessão regular da Diretoria Executiva da nova agência. “O desafio da ONU Mulheres é mostrar ao nosso diverso eleitorado como este recurso pode ser efetivamente explorado de forma a beneficiar a todos.”

Destacando a necessidade de “equilibrar ambição com bom senso”, ela afirmou que se concentrará em cinco princípios fundamentais: promover a aplicação de acordos internacionais por parte de parceiros nacionais; apoiar processos intergovernamentais para reforçar o quadro global da igualdade de gênero; defender a igualdade de gênero e o fortalecimento das mulheres; promover a coerência em relação à questão junto à ONU; e agir como disseminadora global de conhecimento e experiência.

A ONU Mulheres foi estabelecida pela Assembleia Geral em julho do ano passado e deve receber grande impulso em termos financeiros s a serem formalmente lançados no dia 24 de fevereiro, durante a 55ª sessão da Comissão sobre o Status da Mulher, órgão dedicado exclusivamente à igualdade de gênero e à promoção das mulheres.

“Estou determinada a fazer com que a ONU Mulheres seja um catalisador de mudanças, oferecendo nova energia, com base em idéias e valores de longa data, e reunindo homens e mulheres de diferentes países, sociedades e comunidades em um esforço conjunto,” disse Bachelet. Ela observou, ainda, que a abordagem da agência se dará em nível global, embora seu impacto seja sentido principalmente em níveis nacionais, “assim, o suporte técnico e os conhecimentos da ONU Mulheres estarão disponíveis, atendendo a pedidos, a todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento.”

Em suas observações ao conselho de administração, Bachelet também estabeleceu cinco prioridades temáticas em níveis nacionais: a expansão da voz, da liderança e da participação das mulheres; o fim da violência contra as mulheres; a garantia da plena participação das mulheres na resolução de conflitos; o aumento do poder econômico das mulheres; e as prioridades locais relativas à questão da igualdade de gênero.

Fonte: Centro de Informações das Nações Unidas

Programação Atividade CONEN/BA- Malês, Uma Outra Revolta


Lançamento da campanha

Implantação de Símbolos Referenciais

da Revolta dos Malês na Bahia

“MALÊS, UMA OUTRA REVOLTA !!!”

ATO DE LANÇAMENTO

25 JANEIRO / 2011 (TERÇA – FEIRA)

PRAÇA DO CAMPO DA PÓLVORA - FORUM RUI BARBOSA - BAIRRO DE NAZARE

PROGRAMAÇÃO

DAS 14:00 ÀS 14:30 - RECITAL DE POESIAS NEGRAS.

DAS 14:30 ÀS 15:00 - PERFORMANCE DE DANÇA CONTEXTUALIZADA.

DAS 15:00 ÀS 15:30 - PERFOMANCE TEATRAL.

DAS 15:30 ÀS 16:00 - PRONUNCIAMENTOS.

DAS 16:00 ÀS 16:30 - AULA PÚBLICA SOBRE A REVOLTA DOS MALÊS.

DAS 16:30 ÀS 17:00 - APRESENTAÇÃO DE MUSICAS SOBRE A REVOLTA DOS MALÊS.

DAS 17:00 ÀS 17:30 - HOMENAGEM A LUIZA MAHIM COM LEITURA COLETIVA DO POEMA ”MINHA MÃE” DO SEU FILHO LUIZ GAMA.

DAS 17:30 ÀS 18:00 - LETURA COLETIVA DO MANIFESTO DE LANÇAMENTO DA CAMPANHA.

DAS 18:00 ÀS 18:30 - EXALTAÇÃO A PRESENÇA ESPIRITUAL DOS LIDERES DA REVOLTA FUZILADOS NA PRAÇA.

Levante dos Malês




Artigos especiais para o 8 de março - Dia Internacional da Mulher

Leia artigos especiais para o 8 de março - Dia Internacional da Mulher

É muito comum que muçulmanos e muçulmanas tenham que, cotidianamente, responder a dúvidas sinceras e a provocações baratas sobre a questão da mulher no Islam. A maioria das vezes, estas perguntas vêm carregadas de preconceitos e das informações equivocadas que a mídia empurra mentes e goelas abaixo.

Podemos afirmar, com toda a certeza, que, com exceção do Candomblé, onde a figura feminina tem maior destaque, não há religião que garanta condições tão equivalentes às dos homens quanto o islamismo. Por exemplo, conquistas do tempo em que houve a revelação do Alcorão e que as mulheres têm lutado muito até hoje para garantir nos países ocidentais:

- Direito à Individualidade:

A mulher é reconhecida no Islam como a parceira completa do homem e igual a ele na procriação da humanidade. Nesta parceria as partes são iguais em cada aspecto, têm direitos e responsabilidades iguais e são dotadas das mesmas qualidades, seja homem ou mulher. Homens e mulheres têm as mesmas obrigações e responsabilidades sociais, morais e religiosas e devem enfrentar a consequência de seus atos. No Islam, a mulher é independente economicamente, uma vez que ela pode ser proprietária, com direito a administrar seus bens e ninguém, pai, marido ou irmão, tem ingerência no trato de questões financeiras. Nas outras religiões...

- Direito à Educação e Instrução:

Ela se iguala ao homem na busca pelo conhecimento e educação. Quando o Islam conclama os muçulmanos para a busca do conhecimento, ele não faz distinção entre os sexos. A educação não é somente um direito, mas uma responsabilidade de todos os homens e mulheres. No Brasil, quando as mulheres passaram a ter direito à educação?

- Direito à Liberdade de expressão:
O Islam entende que uma mulher não pode se instruir se não lhe é permitido falar. O Islam entende que uma mulher não pode crescer intelectualmente se ela é obrigada a um estado de completa submissão. O Islam entende que uma mulher não tem vida própria se sua única fonte de informação é o marido em casa. Por isso, no Islam ela tem direito à liberdade de expressão, tanto quanto o homem. Suas opiniões são levadas em consideração e não podem ser desrespeitadas sob a alegação de serem provenientes de uma mulher. Há diversos relatos a respeito da participação efetiva das mulheres, não só expressando sua opinião como também questionando e participando de discussões sérias com o Profeta Muhammad (SAAS).

- Direito de Participação Política e Social:
A regra geral na vida política e social é a participação e a colaboração de homens e mulheres nas questões públicas. O Islam não exige, como algumas pessoas pensam, que a mulher fique confinada em sua casa até a morte. Em toda a história do Islam há relatos suficientes que comprovam a participação da muçulmana nas questões públicas, nas funções administrativas, na erudição e ensinamentos e mesmo nos campos de batalha, ao lado do Profeta(SAAS). Não há no Alcorão ou na Sunnah qualquer texto que impeça a mulher de exercer qualquer posição de liderança. No Brasil, por exemplo, o voto feminino foi aprovado apenas em 1934.

- Direito à Herança:

Além do reconhecimento da mulher como um ser independente, considerada como essencial para a sobrevivência da humanidade, o Islam deu à mulher o direito à herança. Antes do Islam, ela não só era privada desta participação como era considerada propriedade do homem.

- Direito da Mulher ao Divórcio:
O Islam garantiu aos casais o direito ao divórcio. O sistema de divórcio no Islam é o mais justo que existe. Desde Muhammad, as mulheres têm não só o direito de pedir o divórcio, como participam da partilha dos bens do casal. Foi a primeira organização do mundo a garantir direitos iguais a homens e mulheres nesta questão. No Brasil, somente em 1977, com a lei do divórcio é que a dissolução do casamento favoreceu um pouco mais a mulher, com a introdução do regime da comunhão parcial de bens.

- Direito à Sexualidade:
Outra questão polêmica com relação ao Islam é a que se refere ao sexo. O Islam não nega, em hipótese alguma, a sexualidade do ser humano, antes pelo contrário. O Islam não advoga a supressão do anseio sexual através do celibato ou do monasticismo. Também neste caso, homens e mulheres têm os mesmos direitos e deveres.

- Direito de vestir-se conforme os preceitos religiosos

As muçulmanas devem ter seus corpos cobertos, inclusive a cabeça, com o hijab (lenço). A burca, aquela vestimenta que cobre inclusive o rosto, não é uma obrigação. Um dos motivos para que as muçulmanas passassem a se vestir de tal forma foi, nos tempos do Profeta, para que fossem respeitadas. No tempo pré-islâmico as mulheres eram tratadas como seres de segunda categoria, desrespeitadas, violentadas e abandonadas por seus próprios pais. Naquele tempo, as que trajavam o hijab apontavam algo do tipo: não mexa comigo, sou muçulmana. Há uma relação de proteção coletiva muito forte entre os muçulmanos: provocou um, provocou todos! No caso dos homens, eles também têm regras na vestimenta. Não podem usar bermudas acima do joelho, nem camisas que deixem a região a partir do umbigo descoberta.

A mulher muçulmana prefere ser respeitada, vista e amada por aquilo que ela é e pensa. NÃO PELA EXPOSIÇÃO DE SEU CORPO, como se fosse um objeto para ser apreciado apenas pelos homens.

Seria muito bom se as mulheres fossem manchete em vários jornais pelo seu brilhantismo acadêmico e profissional, por sua capacidade intelectual, política, social, espiritual, não apenas por seu corpo exposto como carne de açougue.

- Direito ao Direito!

As muçulmanas estão anos luz à frente! Foi através de muita luta que a mulher ocidental alcançou esse esboço de liberdade. Foram séculos de uma árdua luta para a mulher conquistar o direito de aprender, de trabalhar, de ganhar o seu próprio sustento, de ter a sua própria identidade, de ter personalidade e capacidade jurídica. Esta mulher pagou um alto preço para provar sua condição de ser humano, provido de alma. A posição que a mulher ocidental de nossos dias desfruta foi conquistada pela força e não por um processo de mútuo entendimento.

Ela abriu o seu caminho à força, a custa de muitos sacrifícios, abrindo mão de sonhos e ideais. Muitas vezes as circunstâncias a empurraram para um campo de batalha até então desconhecido. E apesar disso tudo, de toda essa guerra, de tão pesados sacrifícios e lutas dolorosas, ela ainda não conquistou o que o Islam estabeleceu para a mulher muçulmana por Decreto Divino.

É por isso que para nós, muçulmanos, todo dia é dia de respeitar e amar as mulheres!


Leia artigo escrito por Mehnaz M. Afridi para a ONG WISE

Graças às minhas viagens freqüentes em terras muçulmanas do Paquistão, por exemplo, eu vi pessoalmente o notável trabalho realizado pelas mulheres no campo dos direitos humanos e pelo crescimento econômico. Elas são empreendedoras, chefes de empresas e administradoras de abrigos, o que destrói a imagem das muçulmanas marginalizadas, analfabetas e isoladas, como a mídia ocidental costuma espalhar.

Bushra Aslam, por exemplo, fundou um orfanato para meninas em Islamabad, após o terramoto de 2005. Fornece educadores, mentores, conselheiros e atividades para 45 pensionistas. Outra mulher notável é Rukhsana Asghar, presidente da Fulcrum (alavanca), uma consultoria empresarial na formação de recursos humanos que oferece bolsas de estudo para meninas pobres.

A opinião pública nos países ocidentais mal conhece as atividades positivas que acontecem em todo o mundo muçulmano. Em Marrocos, Egito e Turquia, por exemplo, há mulheres que são treinadas para serem guias espirituais, ou Murshidat, a oferta de formação espiritual para mulheres e crianças.

Há movimentos como a iniciativa da mulher islâmica, de espiritualidade e da Igualdade dos islâmicos (Women's Initiative em Espiritualidade e Igualdade - WISE), rede social e movimento de justiça social dos cidadãos, que visa a criação de planos de carreira para as mulheres no mundo muçulmano. Um dos programas de Sábios, de esforço (jihad) contra a violência, visa eliminar a violência contra as mulheres e defendem a sua causa no mundo muçulmano e em outros lugares.

WISE se basea no princípio de que "a violência é um fenômeno humano que existe em todas as culturas e comunidades de fé. Perpetua uma realidade constante na vida de milhões de muçulmanas e impedem o desenvolvimento nas esferas religiosa, cultural, política e econômica. Em todas as partes, a violência destrói o potencial das mulheres no seio da família, da comunidade, do seu país."

Em 6 de fevereiro, WISE lançou o Dia Internacional Contra a Mutilação Genital Feminina, uma prática com grande incidência na África. Porque esta praga afeta muitas jovens de diferentes religiões, clérigos cristãos e muçulmanos uniram-se para condená-la. Para expandir a sua mensagem, e como parte de sua jihad contra a violência, WISE trabalha com a Associação Egípcia de Desenvolvimento da Sociedade (EASD), uma ONG sediada em Gizé, ao propor uma educação contra a prática em um contexto religioso e também oferece incentivo financeiro e de atividades que podem tornar uma alternativa de pagamento para as pessoas que realmente praticam a MGF.

Por exemplo, em 2008, os membros da associação contactaram Hussein Amin, um profissional na pratica ilegal da mutilação (MGF é proibida no Egito desde 1996). Após receber a formação religiosa mostrando que a MGF não é islâmica e que é prejudicial às mulheres, Hussein concordou em parar de praticá-la, e, em contrapartida, passou a receber uma compensação financeira e uma nova equipe profissional no programa.

Mais de um ano sem praticar suas atividades ilegais, Hussein Amin orgulhosamente apresenta uma faixa da Universidade de al-Azhar na janela de sua barbearia, que declara que a MGF não é islâmica e está proibida.

WISE também está trabalhando na prevenção e eliminação da violência doméstica. É um fenômeno que os ocidentais erroneamente acreditam que é mais difundida, até aceito entre comunidades muçulmanas, por causa dos estereótipos de Hollywood e divulgada pela mídia ocidental.

Alguns muçulmanos, por sua vez, também acreditam que o Islam autoriza a violência doméstica. Esta atitude é devido a normas culturais, práticas e ignorância tribal de interpretações de textos que reconhecem a dignidade das mulheres.

WISE trabalha para uma melhor compreensão do problema da violência doméstica e oferece apoio às vítimas, através dos seus membros e suas organizações. É o caso de Ambreen Ajaib, uma psicóloga membro da entidade, que trabalha para Bedari, organização paquistanesa de defesa dos direitos das mulheres no Paquistão, que oferece apoio psicológico para as sobreviventes da violência masculina.

Estes são alguns dos compromissos e as alterações feitas pelos muçulmanos, e eles continuam a fazer, para reduzir as desigualdades que são responsáveis pelas práticas de mutilação genital feminina e violência doméstica. Apesar de todos os esforços feitos pelo WISE e outras organizações para divulgar informações sobre o abuso de mulheres vítimas e tomar medidas para erradicá-las vai exigir mais trabalho: há um longo caminho pela frente na estrada que separa igualdade entre as muçulmanas.


Mehnaz M. Afridi, Ph.D. (www.mehnazafridi.com) militante dos direitos das mulheres. Consultar www.wisemuslimwomen.org para mais informações sobre WISE. Artigo escrito para o Serviço de Imprensa de Common Ground (CGNews).
Fonte: Common Ground News Service (CGNews), 5 de março de 2010, www.commongroundnews.org