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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O aborto para o Budismo, o Islamismo e o Judaísmo

Judaísmo
Para nossa surpresa, ao iniciarmos este estudo descobrimos que as regras gerais do judaísmo e, em parte, do islamismo são bem parecidas com as normas que legalmente permitem o aborto no Brasil.
O fato nos fez ter mais certezas, do que dúvidas, sobre como as diversas questões ideológicas do patriarcado influênciam no campo das políticas dos governos, nos paradigmas da ciências e interpretações da justiça, criando pontos comuns onde teoricamente só existem disparidades. Mas, voltando ao ponto,...
em linhas gerais, tanto entre os ortodoxos quanto entre conservadores e reformistas, se o embrião ou feto por em risco a saúde mental e física da mulher, a interrupção da gravidez é permitida. Sendo que entre os reformistas, o "bem-estar" da mulher também entra em consideração (condições sociais e psicológicas) na hora da aprovação. Mas qual a explicação para isso?
Pelo judaísmo, as regras morais de sua prática religiosa se fazem com interpretações racionalizadas dos textos sagrados e as interpretações podem ser mudadas conforme as circunstâncias da realidade cultural e/ou histórica.
Fotos reais de campos de concetração
Segundo a tradição de Maimônides, século XII, se o embrião por em risco a vida, saúde mental e física, da mulher, esta poderia interromper a gravidez, em autodefesa, já que o embrião seria considerado um “rodef” (agressor). Porém, a decisão terá de ser tomada ao lado de um líder espiritual (rabino).
Um exemplo disso é que durante o holocausto, os nazistas condenavam à morte as judias grávidas, na tentativa de impediam a ampliação populacional dos povos dominados. Em resposta, em 1942, no gueto de Kovno, na Lituânia, o rabino Ephraim Oshry permitiu as mulheres a interrupção da gravidez, provavelmente, muitas vítimas de estupros, apesar de, em geral, a comunidade não aceitar a decisão.

Fotos reais
de campos de concetração

Segundo Laurie Zoloth, para o judaismo “quando surge uma nova situação histórica a aplicação diária da comunidade e a fidelidade muda de acordo com contingências políticas, cientifica e físicas, num processo de discussão de alto nível que dá forma a novos estatutos”.
Portanto, ao que parece, o Judaísmo não equipara, como crimes de mesma equivalência, a interrupção de uma gravidez a um assassinato. Para suas tradições, jamais esta deva ser uma prática indiscriminada, porém, para várias diretrizes, é necessario levar em consideração o sofrimento físico e psicológico de uma mulher diante de ter ou não que dar cabo desta situação.
É válido ressaltarmos que apesar de aparentemente “progressista” quando comparada ao cristianismo, a tradicional religião do judaísmo, não permite que a interrupção da gravidez seja uma escolha exclusiva da mulher. Este impedimento religioso que, ao mesmo tempo, delega o peso da decisão também “a comunidade”, faz da mulher uma “incapaz" de tomar as rédeas de sua vida nas mãos, pois a obriga a entrar em “consenso” com a opinião masculina, lhe outorgando poderes sobre seu próprio corpo. Desta maneira, não é por vontade da mulher que a gravidez é interrompida, mas por permissão do rabino que encontra, com sua "sabedoria", uma razão moral e justa para o ato, legitimando assim o poder patriarcal.

O islamismo
Segundo as tradições do islã, o Corãocondena qualquer o ato de matar. Embora todas as vidas sejam sagradas, em caso de risco de vida para a mulher, é aconselhável salvar a vida principal, ou seja, a vida da mãe, assim como no judaísmo.
Para a fé islâmica, no dia derradeiro da humanidade, os seus filhos serão as testemunhas de acusação dos pais que os "mataram", (81:8-9). Por questões históricas, o Corão estabelece pragmatismos, digamos, “interessantes” que afirmam "Não mateis os vossos filhos por medo da pobreza (17:31)”, pois Alá te proverá.
Desta maneira, é possível se estabelecer valores econômicos para perdas humanas sagradas. Algo também comum nas leis ocidentais. Quando uma gravidez é interrompida, acidentalmente, é estipulada uma indenização que deve ser paga ao pai quando, por meio do “acidente”, a vida de um embrião se perde. Mas o valor de um embrião é diferente da vida de um feto.
Se uma gravidez foi interrompida antes do 5º mês, deve ser pago ao pai 1/10 do preço que se paga por uma pessoa, após o 5º mês a indenização é integral. Em outras palavras, até o 120º dia gestacional, a prática da interrupção da gravidez é desaprovada, mas não necessariamente proibida na escola de tradição Zaydi (na escola de tradição Hanbali, até 40 dias após a concepção, a gravidez poderia ser interrompida por drogas de via oral).
Segundo o livro O Drama do Aborto, ao que nos pareceu, para a erundição Hanafi e Shafi’i, o aborto seria permitido até 120 dias, se houver uma justificativa “aceitável”. Nas Maliki, Zahiri, Ibadiyya e Imamiyya, a interrupção da gravidez é expressamente proibida.
Leila Khaled Hijacker- Guerrilheira palestina
A principal causa da condenação mulçumana ao aborto tem raizes históricas e nos remete a prática do infanticídio, como mostrou a citação 17:31, do Corão .
Parecemos lógico que, enquanto recém centralizados, os povos beduínos viram no infanticídio uma grave preocupação para o desenvolvimento econômico e crescimento populacional, algo que os levou expansão pela África, Ásia e Europa.
Toda via, isso não é especialmente condenável, já que não foi nada diferente do que aconteceu com todas as civilizações patriarcais que viram na maternidade a oportunidade de produzir soldados para suas guerras de conquista. Inclusive, a colonização de povos pelos islâmicos medievais era muito mais permissiva do que foi todo o processo europeu de exploração nas Américas.
Budismo
Em linhas gerais, o budismo trabalha com a idéia do karma que, dentro do que compreendemos, teria o significado de “continuidade”.
A questão central da filosofia budista não é o “mal” como entidade externa e etéria, mas as causas que levam ao sofrimento: "mal" (ao que nos pareceu, o "mal" como fenômeno espiritual humano).
Nesta linha de crença, um ato perpetua-se da ação até a morte da pessoa, chegando ao seu outro nascimento e nova morte.
Existe também no budismo uma relação individual “semelhante ao existencialismo”, pois as consequências das atitudes pessoais podem atingir toda uma coletividade causando-lhes as dores e angústias da infelicidade.
Entre as diretrizes comuns as práticas budistas, a rejeição a violência dá-se como um dos principais exemplos. Mas é preciso ter a ciência/conhecimento do que é ou não é violento.
A meta dos budistas é atingir o aprimoramento espiritual dos indivíduos, onirvana (o estado de libertação da infelicidade e das dores existentes no mundo, uma espiritualidade de paz e felicidade). E o principal caminho para isso se dá através do desapego ao efêmero. Segundo o budismo é necessário rejeitar “as três raízes do mal” ou “os três venenos” (à ambição, à má-intenção e à ignorância) transformando-os em generosidade, compaixão e sabedoria.
As escrituras budistas não mencionam o aborto, porém estabelecem como positivos a sexualidade e o matrimônio desde que, em nenhuma das duas práticas, nelas esteja presente qualquer uma das intenções acima descritas. É neste ponto que as coisas ficam “um pouco mais complicadas” e interferem/legitimam os fundamentos ideológicos patriarcais.
Para os budistas o matrimonio não é um ritual religioso, mas a segunda melhor instituição social depois do sacerdócio, assim, a “infidelidade”, o ato sexual com um monge ou com uma mulher sobre a proteção dos pais são considerados como atos de “má-conduta”. E, a nosso ver, é por ai que, apesar dos escritos tradicionais não citarem o aborto, a interrupção de uma gravidez pode ser dada, em geral, como algo negativo.
Como no budismo a questão é a oposição entre a sabedoria e a ignorância, mais uma vez em caso de estupro ou risco de vida para a mulher, as conseqüências do aborto são minimizadas, inclusive para o médico. Se por exemplo for feito para escolher o sexo de uma criança, a carga negativa é potencializada. Contudo, não existindo “má-intenção” da mulher e se a interrupção for feita cedo, as conseqüências negativas são minimizadas, pois a vida espiritual no budismo é uma continuidade que não conhece tempo ou espaço. 
manifestação do monge budista Thích Quảng Ðức
Assim, quando muito se fala de quais seriam os motivos para que em países de maioria budistas, como o Japão, as leis serem mais flexíveis referentes ao aborto, sem que ocorra muita resistência por parte das representações religiosas, talvez é que, diferente das religiões de base monoteísta que mais temos contato (judaísmo, cristianismo e islamismo), no budismo o ponto é a permanência ou não da humanidade na ignorância. Isso responsabiliza os indivíduos pela decisão de seus atos, sequência de sua vida espiritual e considera as particularidades da vida humana e social. Não outorgando "a mágicas fontes externas" qualquer solução ou culpa que não sejam as próprias motivações pessoais dos indivíduos.
Outro fator que contribui para o fato é que os ensinamentos budistas não são necessariamente os mesmo nos diferentes países em que é praticado. Não existe uma organização busdista que execute doutrinamentos para todos os seus praticantes, por pura má-nipulação política, diferente do cristianismo que chatagia a consciência popular com a expulsão do paraiso e a eterna uma condenação ao inferno para os que não seguirem suas “normas religiosas”, que centraliza toda a política de sua doutrina na autoridade Papal e institui dentro dos gabinetes parlamentares o doutrinamento de leis e estudos médicos, lotados de antigos interesses econômicos.
Texto Ana Clara Marques e Patrick Monteiro

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(OBS:
1-Como não somos especialistas no temas religião, mas estudiosas sobre as relações e consequências destas para as relações de gênero, neste estudo que se seguirá nas próximas duas postagens, qualquer equívoco poderá ser retificado com os comentários dos leitores;
2- O principal parâmetro para a publicação deste estudo foi abordar as principais religiões capazes de influenciar no lobby internacional anti-direito das mulheres. Por tais motivos, várias religiões de importância no Brasil não serão analisadas (como por exemplo, as de matriz africana e indígenas). Esta também é o objeto fundamental do livro "O Drama do Aborto", que nos serviu de base;
3-Nas publicações iniciais daremos mais descrições sobre como cada religião encara a questão do aborto do que necessariamente, nós MAÇÃS PODRES, vamos expor nossas opiniões, que ficaram basicamente para a conclusão)

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