| CONCEIÇÃO EVARISTO |
Indignadas com os atos de violência contra a mulher, nós percebemos que dos casos recentemente expostos na grande mídia, apenas duas das vítimas mostradas eram negras (Janaína Brito Conceição, de 16 anos, e Gabriela Alves Nunes, de 13 anos), e isso só ocorreu pela barbaridade do crime e logo foi esquecido, e que nenhuma das delegadas responsáveis para solucionar qualquer um estes crimes eram negras.
| ELDRIDGE CLAEVER |
Não existe imaginário que se mantenha no conciente coletivo se também não existirem estruturas materiais e limitações institucionais capazes de sustentar tais mitos. Ainda pesa sobre as mulheres negras todo um conjuto de impedimentos sociais que faz com que a realidade se projete na mente das pessoas, como se "naturaliza" nas novelas.
Se o feminismo é a nossa principal teoria de libertação das mentes e dos corpo, eis que então temos muita responsabilidade nisso, não?
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| Imagens o corpo das mulheres brancas usados para expressar a liberdade, a revolução e a justiça |
Dada a simbologia machista, o corpo das mulheres brancas também é a principal representação da justiça, da liberdade e da revolução. O pior é que as meninas negras também cressem vendo e sendo influenciadas por estes signos.
Mas, como recitou Vinicius de Morais: “o destino dos homens é a liberdade”. Não sendo somente um símbolo sexual, mas um objeto de liberdade, este patrimônio físico que naturalizara em nós, nos coisifica. Seja para o homem branco (que nos utiliza como troféu) ou, como disse Cleaver, para o homem negro, que encontra nas mulheres brancas “o equilíbrio e a igualdade" que lhe negaram (cada um com seu privilegio miserável, eles como homens e nós como brancas, eles oprimidos como negros e nós como mulheres), como todo objeto, nossa função é garantir parte da satisfação e da liberdade do “proprietário”, executando trabalhos degradantes ou gerenciando a degradação de outrem, assim como ocorria com os escravos e seus feitores.
| ...os termos relacionados são “branca de neve” e “folha branca". Sabendo que a plataforma Google oferece-nos os resultados mais pesquisados, esta informação deve refletir algo, não é? |
Conclusão:
| LÉLIA GONZALEZ |
Isso fica fácil de reconhecer e comprovar quando usamos as mesmas letras da grandeLÉLIA GONZALEZ:
“Em pesquisa que realizamos com mulheres negras de baixa renda (1983), muito poucas, dentre nossas entrevistadas, começaram a trabalhar já adultas. Migrantes na grande maioria (principalmente vindas de Minas Gerais, do Nordeste ou do interior do Estado do Rio de Janeiro), e muitas vezes já tendo “trabalhado na roça”, entravam na força de trabalho por volta dos 8-9 anos de idade para “ajudar em casa”. Desnecessário dizer que, nos centros urbanos, começavam a trabalhar “em casa de família”, além de tentarem freqüentar alguma escola. Pouquíssimas conseguiram “fazer o primário”. Um dos depoimentos mais significativos para nós, o de Maria, fala-nos das dificuldades da menina negra e pobre, filha de pai desconhecido, em face de um ensino unidirecionado, voltado para valores que não os dela. E, contando seus problemas de aprendizagem, ela não deixava de criticar o comportamento de professores (autoritariamente colonialistas) que, na verdade, só fazem reproduzir práticas que induzem nossas crianças a deixar de lado uma escola onde os privilégios de raça, classe e sexo constituem o grande ideal a ser atingido, através do saber ‘por excelência’, emanado da cultura ‘por excelência’: a ocidental burguesa.”
Observem as características sócioculturais das pessoas a quem estes números "antigos" (1983) se referem, são os mesmo perfis da pesquisa que a Organização Internacional do Trabalho revelou em seu último relatório. Se certa vez “sua mente já desejou a insurreição e suas mãos trabalharam para a revolução”, te perguntamos o que é revolução (feminista)?
Com certeza, ela não é a mínima igualdade salarial, ou a conquista de espaços economicamente planejados no mercado de trabalho, que produzem ainda mais mais-valia, ou a exigência de representação nos altos cargos políticos de um Estado estruturado para violentar mulheres e exterminar pessoas pobres e negras.
Muito sabiamente, Maquiavel disse: “dividir para dominar”, e nós feministas (brancas) certamente, ao de não denunciarmos os privilégios miseráveis que o patriarcado nos oferece como mulheres brancas (para nos manter dentro de nossa condição de mulher), contribuimos para confirmar as maquiavélicas estruturas do “príncipado burguês”. Ainda bem, mas a custo de muito sofrimento, que sempre existe uma feminista (negra) que levanta a mão e coloca, nas pautas de nossas reuniões, a ferida aberta da opressão racista patriarcal. Até o dia que ela se cansa de falar e, assim como também fizeram (fizemos com) as meninas negras da escola, que se sentavam ao nosso lado na carteira) ela sae de nosso lado e vai buscar sozinha (com as demais companheiras) seu lugar ao sol. Que esta realidade mude, antes da nova primavera dos povos (feministas).
* Este texto é uma continuação de "PARA ALÉM DA COR DA PELE: A DIALÉTICA DOS FEMINISMOS BRASILEIROS".
http://www.fundaj.gov.br/geral/observanordeste/valdenice.pdf
http://aqueladeborah.wordpress.com/2010/04/09/os-privilegios-em-ser-branca/
http://asppir.wordpress.com/artigos/a-opiniao-de-uma-mulher-branca-acerca-da-mulher-negra-e-a-resposta-de-um-homem-negro/
http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/02/17/brasileiros-sao-mais-europeus-do-que-se-imaginava-923828390.asp
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:Tm6wln6iSCsJ:portaldovoluntario.org.br/blogs/54329/posts/228+o+racismo+das+mulheres+brancas&cd=8&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&source=www.google.com.br
http://www.fazendogenero.ufsc.br/8/sts/ST69/Silvana_Verissimo_69.pdf
http://www.ueangola.com/index.php/criticas-e-ensaios/item/190-o-corpo-feminino-da-na%C3%A7%C3%A3o.html








