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Enfim assuntos sobre o passado e sobre nosso cotidiano relacionado à História do Brasil e do Mundo.








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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os privilégios de ser uma mulher branca

Nestes dois anos de muita pesquisa, nunca tivemos tanta dificuldade em achar artigos que fundamentassem nossos textos. Não pela ausência de material sobre a condição da mulher negra, mas pela inexistência de textos representativos capazes de sentenciar os privilégios sociais de ser uma mulher branca. Toda via, a partir das sementes plantadas por Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Ângela Davis e Eldridge Claever, e muitas outras, além de uma entrevista da escritoraCONCEIÇÃO EVARISTO, nós Maçãs Podres conseguirmos construir uma dialética que nos forneceu as primeiras respostas sobre este tema ainda tão pouco explorado dentro do feminismo.
"Ser uma mulher negra não é simplesmente ser uma mulher"
CONCEIÇÃO EVARISTO
Muito lúcida, a escritora CONCEIÇÃO EVARISTO explica que há diferentes implicações feministas entre ser mulher negra e ser simplesmente uma mulher:
É muito diferente (ser mulher negra e simplesmente mulher). A questão étnica pode ter um peso bem grande, mas vai depender muito da situação em que se está. Na questão do feminismo, por exemplo, enquanto as mulheres brancas precisaram sair às ruas para ficar livres da tutela do pai, do marido ou do irmão, esse não foi o nosso caso. Não precisamos lutar pra ficar livre da dominação e querer trabalhar. A gente sempre precisou trabalhar. O nosso feminismo vem para a gente se afirmar como pessoa. Eu acho que a nossa primeira luta feminista não foi contra o homem negro, mas contra os nossos patrões e patroas. Enquanto a primeira luta da mulher branca e da mulher de classe média foi contra os homens de sua própria família - e eu não estou dizendo que o homem negro não seja machista -, nós nos posicionamos primeiro contra o sistema representado, principalmente, pelo homem branco e pela mulher branca”.
Ser uma mulher branca significa ter miseráveis privilégios
Se nunca te perguntaram se a “patroa” estava em casa, quando você foi atender alguém no portão da residência onde mora; se você nunca reparou que foi vigiada por seguranças ao entrar em um Shopping Center; se você nunca se preocupou com o fato de um porteiro ou inquilino te mandar entrar pela área de serviço do condomínio privado em que mora uma amiga; se provavelmente você jamais buscou saber dos estudos que comprovam que os professores tendem a tratar melhor e dar maiores notas aos alunos e alunas brancas; ou se jamais notou que, a medida que sua escolaridade aumentava, existia cada vez menos meninas negras sentadas ao seu lado, sinta-se uma miserável privilegiada, pois provavelmente você deve ser branca.
Agora, se você já se perguntou por que te chama a atenção o fato de que a maioria das doutoras da faculdade tinha a pele clara? Ou por que sua ginecologista, dentista e psicóloga nunca eram negras? É porque você provavelmente já se incomodou ou ousou questionar os privilégios miseráveis de ser uma mulher branca. Provavelmente não foi fácil sentir que para “superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, você terá também que superar as ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo”, como bem entendemos, ao lermos a SUELI CARNEIRO. Não é fácil, mas é necessário.
ANGELA DAVIS
Ser mulher negra significa lutar dentro dos movimentos
negro e feminista para não ser invisibilizada
ANGELA DAVIS, provavelmente a maior intelectual do movimento negro do séc. XX, sentenciou que (existe) “...uma síndrome infeliz entre alguns ativistas masculinos Pretos – que confundem sua atividade política com uma afirmação da sua masculinidade. ...Eles viram - e alguns continuam vendo – a masculinidade Preta como algo que se separa do estado de mulher Preta. Esses homens examinam mulheres Pretas como ameaça à sua obtenção da masculinidade – especialmente aquelas mulheres Pretas que tomam a iniciativa e trabalham para serem líderes no seu próprio direito.”, ou seja, é provavelmente muito comum que mulheres negras (que ainda não desenvolveram uma forte consciência feminista, ao buscarem sua afirmação pessoal quando saem de algum movimento formado predominantemente por mulheres brancas, como citou CONCEIÇÃO EVARISTO) acabem tendo seu potencial de atuação limitado pelo machismo que se estruturou na cabeça dos homens negros, filhos das diásporas africanas.
Ser uma mulher branca significa
ter o privilégio miserável de se destacar nas estatísticas
A conjugação de lutas (contra o machismo e o racismo) é tão importante e direta para o feminismo que, só com a fusão das duas práxis e teorias, é que nos foi possível sair das frias estatísticas que semopre divulgamos.
Indignadas com os atos de violência contra a mulher, nós percebemos que dos casos recentemente expostos na grande mídia, apenas duas das vítimas mostradas eram negras (Janaína Brito Conceição, de 16 anos, e Gabriela Alves Nunes, de 13 anos), e isso só ocorreu pela barbaridade do crime e logo foi esquecido, e que nenhuma das delegadas responsáveis para solucionar qualquer um estes crimes eram negras.
Ou seja, apesar de todas as estatísticas que já denunciamos aqui e todos os estudos que divulgamos, do projeto em que estampamos os nomes de vítimas fatais e dos textos em que afirmamos serem as mulheres negras as maiores vítimas da violência patriarcal, nunca havíamos ido além das impessoais estatísticas, nunca mostramos seus rostos e assim também as transformamos em números, invisibilizando o machismo racista do Brasil. 
ELDRIDGE CLAEVER
 Ser mulher negra significa "representar no imaginário popular a escravidão"
O ex-pantera negra, ELDRIDGE CLAEVER autor de “Alma no Exílio”, um dos mais contundentes e honestos relatos sobre a masculinidade, escreveu que: “não sei exatamente como a coisa funciona, quero dizer, não consigo analisar, mas sei que o homem branco fez da mulher negra o símbolo da escravidão e da mulher branca o símbolo da liberdade. Todas as vezes que abraço uma mulher negra estou abraçando a escravidão, e quando envolvo em meus braços uma mulher branca, bem, estou apertando a liberdade”.
Não existe imaginário que se mantenha no conciente coletivo se também não existirem estruturas materiais e limitações institucionais capazes de sustentar tais mitos. Ainda pesa sobre as mulheres negras todo um conjuto de impedimentos sociais que faz com que a realidade se projete na mente das pessoas, como se "naturaliza" nas novelas.
Se o feminismo é a nossa principal teoria de libertação das mentes e dos corpo, eis que então temos muita responsabilidade nisso, não?
Ser mulher branca significa
ter o privilégio miserável de representar a felicidade
Imagens o corpo das mulheres brancas
usados para expressar a liberdade, a revolução e a justiça
É difícil pra qualquer mulher consciente se ver incluída no mundo machista, mas, ao menos, nas fotos das revistas do sonho burguês ou nas belíssimas pinturas renascentistas, existem imagens que justificam o que disse Stendhal: “a beleza é a promessa da felicidade”.
Dada a simbologia machista, o corpo das mulheres brancas também é a principal representação da justiça, da liberdade e da revolução. O pior é que as meninas negras também cressem vendo e sendo influenciadas por estes signos.
Lógico que como já disse Marx: "tudo esta impregnado do seu contrário" e assim como as mulheres negras não são a "escravidão", estas representações da liberdade, da justiça e da revolução são imóveis e petrificadas, normalmente não nos atingem ao ponto de podermos nos apoiar nelas. Porém, queiramos ou não, num contexto geral, seus significados “facilitam” nossa vida, pois todas as características fisicas tidas como boas ou “apresentáveis” (cabelo, nariz, etc) estão presentes em nosso corpo, o que facilita nossa aceitação conosco e com o mundo. Gisele Bündchen que diga.
Mas, como recitou Vinicius de Morais: “o destino dos homens é a liberdade”. Não sendo somente um símbolo sexual, mas um objeto de liberdade, este patrimônio físico que naturalizara em nós, nos coisifica. Seja para o homem branco (que nos utiliza como troféu) ou, como disse Cleaver, para o homem negro, que encontra nas mulheres brancas “o equilíbrio e a igualdade" que lhe negaram (cada um com seu privilegio miserável, eles como homens e nós como brancas, eles oprimidos como negros e nós como mulheres), como todo objeto, nossa função é garantir parte da satisfação e da liberdade do “proprietário”, executando trabalhos degradantes ou gerenciando a degradação de outrem, assim como ocorria com os escravos e seus feitores.
Outros privilégios de ser uma branca
Não sou a voz das mulheres negras, sei que os espaços negros são uma forma de resistência e enfrentamento frente ao racismo. Por respeito, sei onde posso entrar e onde não posso invadir. Lembro-me de uma baile black que tinha aqui na cidade, onde entrava somente negros e negras, e os brancos ficavam indignados. Não me indignava, pois sabia que todos os espaços eram espaços de brancos. Por tanto, peço licença para expor a parte que me cabe.
Como menina branca, percebi muito cedo minha vantagem em relação as meninas negras. Só não sabia que esta vantagem se estenderia por toda minha vida. E que vinha de tantos séculos.
Foi nas “brincadeiras de meninas brancas” que vi como era difícil, para elas, sonharem os mesmo sonhos que eu. Um sonho de criança só é sonho quando você consegue prolongar sua sensação de olhos abertos. Mas se cada imagem que te cerca, te lembra que aquele sonho não pode ser possível, a realidade fica marcada na sua cabeça, invertendo a lógica do desenvolvimento humano. Para duas amigas de infância, ao abrirem os olhos, elas viam que a verdade delas estava na cor da pele, na quantidade de melanina. E isso limitou o desenvolvimento lúdico delas.
Como tantas outras meninas dos anos de 1980, imitávamos os passos das paquitas, mexendo e remexendo longos e lisos cabelos. Na hora de dançarmos com as madeixas, eu não pensava duas vezes, mas para elas isso era como se rasgasse a pele. A solução elaborada foi amarrarem um pano na cabeça. E lá estava eu, lúdica, de cabelo solto e as duas precisando superar as barreiras e disfarçar suas características físicas com panos na cabeça. É em momentos como este que fico indignada com as frases do tipo: “a dificuldade estimula a criatividade”. Sim, eu sei que é verdade, porém a que custo?
Este era somente um dos grandes problemas enfrentados por minhas amigas negras, outro eram as bonecas. As cruéis imitações da Barbie. Nós olhávamos e víamos a brancura, o olho azul tão desejável, o cabelo amarelo, as roupas, tudo que as meninas deveriam sonhar e desejar e isso era o que minhas amigas nunca iriam ter. E por mais que soubessem, elas ainda tentavam aproximar-se desta figura.
O cabelo é parte considerável na auto estima das mulheres. As duas alisavam os cabelos, e isso é um ritual de embranquecimento. Não havia nenhuma menina negra na vila onde eu morava que não tivesse o cabelo alisado. Era quase uma regra de “limpeza”. Mesmo sabendo da artificialidade e de como era difícil e doloroso, todas se embranqueciam. Tinha de fazer. Poderia até faltar comida, mas o alisante estava lá todo final do mês. Eu não precisava me preocupar com isso, afinal “Deus foi bom comigo” – foi o que uma vizinha de mamãe falou.
Realmente eu não me preocupava. Até que um dia vi uma de minhas amigas sem cabelo. O cabelo havia caído e a química queimado o couro cabeludo. Ela chorava e eu não sabia o que falar. Disse pra ela que ela não precisava fazer mais aquilo. E ela disse que não poderia sair na rua com “o cabelo ruim”. Ela queria “um cabelo bom”. Ou melhor, um cabelo de branco como o meu! Ao vê-la sofrer tanto, percebi um dos meus primeiros privilégios.
Lembro da gente saindo para festas e como era mais fácil me arrumar. Não tinha muito que pensar nestas horas. E olha que eu nem era tão “feminina” assim. Uma delas ficava muito insegura, arrumando o cabelo o dia todo, tentando deixá-lo o mais liso possível. O mais próximo do “desejável”. Nesta época, as meninas molhavam o cabelo para deixar menos crespo, molhavam o cabelo toda hora no banheiro. Os meninos as chamavam de “as molhadinhas”. Em locais de “caça”, eu e as outras meninas brancas ficávamos despreocupadas. Sabíamos que pelo menos dois meninos iam nos tirar pra dançar. Com elas, nem isso.
Hoje sei tal realidade é definidora da saúde mental de uma pessoa. Influencia em sua identidade, na ausência ou não de autoconfiança e no decorrer de seu futuro e visão de mundo. Eis outro privilégio.
Não precisar agradar tanto um menino, evita um cem número de violências de gênero. Poder dizer não, se ele quisesse transar sem camisinha, era a possibilidade de “negociar” o uso do preservativo, sem medo de perder o cara. O que me dava coragem de dizer “não” era o fato de ele me aceitar como eu sou: branca.

Quantas pessoas já repararam, por exemplo,
que ao pesquisarem a palavra “negra” no Google
imagens, os termos que aparecem relacionados
são “negra safada”, “mulher negra” e “negra feia”
ouse fizermos a mesma pesquisa com a palavra
“branca”...

Para as meninas negras era contrário. A “insegurança” nascida do racismo fazia que elas se submetessem a “tudo” que o cara quisesse, pois não tinham a certeza que outro poderia querê-las. Transar sem camisinha é comum nas periferias nascidas com o fim da escravidão. O racismo faz com que meninas negras façam coisas que não querem fazer. Na descoberta do corpo e da sexualidade, as meninas negras se encontram muito mais vulneráveis a uma gravidez do que meninas brancas. Era como se esta “ficada” fosse a única chance de uma noite ou de uma vida toda.
O tratamento que uma de nós recebe é diferente, mas a menina com mais melanina e que tinha o fenótipo negro mais marcado, nos disse o quanto o cara havia invadido o corpo dela. Numa dessas invasões, ela acabou engravidando. Mesmo ainda não sendo feminista fui a única que dei a opção do aborto. Mas para elas, que sentiam que pouco tinha a conquistar, “perder” um filho é inimaginável.
Mesmo sabendo que várias mulheres havia realizado o aborto, ela teve o filho. Um lindo menino de fenótipo negro. Mas de olhos verdes, pele branca e “cabelo amarelado”. Ele era o orgulho da casa. Outro privilégio: uma criança não-negra no meio de seis crianças negras se destaca. Eu via como esta criança era tratada e como as outras eram apagadas da existência.
...os termos relacionados são
“branca de neve” e “folha branca".
Sabendo que a plataforma Google
oferece-nos os resultados mais pesquisados,
esta informação deve refletir algo, não é?

Hoje enquanto mulher branca reconheço outros vários privilégios. Sei como é dolorido abrir mão de privilégios, mas quis abrir mão deles. Sei que reconhecer meu privilégio é fundamental para o fim do racismo e sei que em alguns espaços é importante me posicionar, pois vivendo o politicamente correto, os brancos construíram sua identidade em cima do racismo, se somos o que somos, se temos esta auto estima é porque outros tiveram rasgadas sua identidade e reconhecer estes privilégios é um dos poucos papéis que os brancos tem para a eliminação do racismo.
Para as minhas amigas os objetivos, os sonhos que elas conseguiram alcançar, as vontades e os limites eram totalmente diferentes dos que a sociedade me ofereceram. Hoje uma delas trabalha como vendedora e outra de doméstica, enquanto eu sou uma "cientista social". Eis mais um privilégio que não me envaidesse, mas comprova a lógica expostas neste texto.

Conclusão:
Por que é preciso enegrecer o feminismo?
No capitalismo a liberdade é medida por um bom cargo, por uma alta remuneração, pelo acúmulo de propriedades e dinheiro e principalmente pelo número de pessoas excluídas. Este é o principal indicativo que comprova como a sociedade das desigualdades sexuais se estruturou em oferecer privilégios miseráveis, para algumas mulheres, que garantam a manutenção do que se originou com o primeiro patriracado: a exclusão social/sexual.
O sistema econômico patriarcal não quebrará mesmo se todas as mulheres assumirem todos postos de chefia da política, dos bancos e das industrias, pois isso significará queos homens da alta burguesia, donos de 99% das grandes propriedades privadas¹, estarão apenas nos colocando pra gerenciar a exploração dos homens pobres e de outras mulheres. E nem mesmo se este bolo for dividido entre os gêneros, ainda assim, existirá mulheres aliendas, com seus corpos excluidos, das riquezas materiais e humanas.
No capitalismo, nem todas as atividades são transformadoras ou geram mais-valia e bem sabemos que, numa sociedade hieraquizada, jamais existirão cargos de chefia para todas as pessoas, o que garante a hierarquia da desigualdade economia, ou seja, no atual sistema econômico patriarcal, assim como em sua origem, a tal liberdade não é para tod@s. Se hoje existe alguma “liberdade para as mulheres” no Brasil, não é por que nós somos mulheres, mas por nós seremos brancas ou burguesas. Assim como há espaço para algumas mulheres gerenciarem a exploração alheia, também existe (em menor escala) os mesmo cargos de gerência para algumas pessoas da comunidade negra (lógico que mais para os homens, do que mulheres, já que a economia responde as lógicas do machismo). Introduzir uma pequena parte dos excluidos dentro dos sistemas patriarcais é uma tática de manutenção que existe desde os tempos da Roma Antiga.
Se quase 50 anos após a comercialização das pílulas contraceptivas, ainda precisamos urgentemente da construção de creches, em parte, isso nos revela o quanto as conquistas do movimento de mulheres burguesas, responderam as necessidades imediatas impostas pelo próprio capitalismo. A filhas dos grandes burgueses brancos e da classe média urbana, na maioria, foram as que mais colheram os frutos de tais conquistas. Conquistas estas que converteram as antigas operárias das fábricas, em vendedoras de magazines e funcionárias de fraldários.
LÉLIA GONZALEZ
Se as mulheres negras, em sua maioria, continuam em condições tão próximas da imediata anulação do escravismo, conclui-se que as "melhoras tão midiáticas" não ocorram para a grande massa de mulheres brasileiras. Se as mulheres, que hoje trabalham em atividades de grande status, precisam de outras mulheres para cuidarem de seus lares e filhos, perguntamos quem são estas cuidadoras e onde estão os filhos destas mulheres?
É fundamental para a construção de uma consciência feminista mais ampla, que nós não venhamos a nos referir a questões raciais como um “altruísmo humanista”, comum aos filósofos brancos, mas como uma questão fundamental para uma nova elevação das práxis feministas.
Isso fica fácil de reconhecer e comprovar quando usamos as mesmas letras da grandeLÉLIA GONZALEZ:
“Em pesquisa que realizamos com mulheres negras de baixa renda (1983), muito poucas, dentre nossas entrevistadas, começaram a trabalhar já adultas. Migrantes na grande maioria (principalmente vindas de Minas Gerais, do Nordeste ou do interior do Estado do Rio de Janeiro), e muitas vezes já tendo “trabalhado na roça”, entravam na força de trabalho por volta dos 8-9 anos de idade para “ajudar em casa”. Desnecessário dizer que, nos centros urbanos, começavam a trabalhar “em casa de família”, além de tentarem freqüentar alguma escola. Pouquíssimas conseguiram “fazer o primário”. Um dos depoimentos mais significativos para nós, o de Maria, fala-nos das dificuldades da menina negra e pobre, filha de pai desconhecido, em face de um ensino unidirecionado, voltado para valores que não os dela. E, contando seus problemas de aprendizagem, ela não deixava de criticar o comportamento de professores (autoritariamente colonialistas) que, na verdade, só fazem reproduzir práticas que induzem nossas crianças a deixar de lado uma escola onde os privilégios de raça, classe e sexo constituem o grande ideal a ser atingido, através do saber ‘por excelência’, emanado da cultura ‘por excelência’: a ocidental burguesa.”
Observem as características sócioculturais das pessoas a quem estes números "antigos" (1983) se referem, são os mesmo perfis da pesquisa que a Organização Internacional do Trabalho revelou em seu último relatório. Se certa vez “sua mente já desejou a insurreição e suas mãos trabalharam para a revolução”, te perguntamos o que é revolução (feminista)?
Com certeza, ela não é a mínima igualdade salarial, ou a conquista de espaços economicamente planejados no mercado de trabalho, que produzem ainda mais mais-valia, ou a exigência de representação nos altos cargos políticos de um Estado estruturado para violentar mulheres e exterminar pessoas pobres e negras.
Muito sabiamente, Maquiavel disse: “dividir para dominar”, e nós feministas (brancas) certamente, ao de não denunciarmos os privilégios miseráveis que o patriarcado nos oferece como mulheres brancas (para nos manter dentro de nossa condição de mulher), contribuimos para confirmar as maquiavélicas estruturas do “príncipado burguês”. Ainda bem, mas a custo de muito sofrimento, que sempre existe uma feminista (negra) que levanta a mão e coloca, nas pautas de nossas reuniões, a ferida aberta da opressão racista patriarcal. Até o dia que ela se cansa de falar e, assim como também fizeram (fizemos com) as meninas negras da escola, que se sentavam ao nosso lado na carteira) ela sae de nosso lado e vai buscar sozinha (com as demais companheiras) seu lugar ao sol. Que esta realidade mude, antes da nova primavera dos povos (feministas).

Viva o movimento Feminista!
Texto: Ana Clara Marques e Patrick Monteiro
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1-De acordo com Humphrey Institute of Public Affairs, da universidade estado de Minnesota (WOLF, Naomi: O mito da beleza), apesar de mais de sermos 50% da população e ocuparmos dois terços das horas trabalhadas, somos donas de menos de 1% das grandes propriedades capitalistas. Em seu primeiro encontro com as militantes do Movimento de Libertação das Mulheres, Simone de Beauvoir levantou uma questão da qual ela mesma afirmou não saber a resposta (“Como, segundo vocês, se articulam exatamente a opressão patriarcal e capitalista?”); uma afirmação, conseqüente desta mesma questão, foi sentenciava por Beauvoir : “toda a tática que as mulheres devem seguir, depende disso (desta resposta)”. Sua preocupação mostrou-se legitima, pois segundo ela, para não se estagnar, o feminismo após as conquistas da década de 1960, deveria estudar o papel das mulheres dentro das relações de exploração capitalistas. Contudo, dentro da realidade brasileira, não nos basta articular só as questões de classe, precisamos atingir o cerne das questões raciais/étnicas, pois o abismo social brasileiro se concentra, em grande parte, nos resquícios da exploração escravista.

* Este texto é uma continuação de "PARA ALÉM DA COR DA PELE: A DIALÉTICA DOS FEMINISMOS BRASILEIROS".
**- para escrever este texto também tivemos como referência os linques abaixo:

http://www.fundaj.gov.br/geral/observanordeste/valdenice.pdf
http://aqueladeborah.wordpress.com/2010/04/09/os-privilegios-em-ser-branca/
http://asppir.wordpress.com/artigos/a-opiniao-de-uma-mulher-branca-acerca-da-mulher-negra-e-a-resposta-de-um-homem-negro/
http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/02/17/brasileiros-sao-mais-europeus-do-que-se-imaginava-923828390.asp
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:Tm6wln6iSCsJ:portaldovoluntario.org.br/blogs/54329/posts/228+o+racismo+das+mulheres+brancas&cd=8&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&source=www.google.com.br
http://www.fazendogenero.ufsc.br/8/sts/ST69/Silvana_Verissimo_69.pdf
http://www.ueangola.com/index.php/criticas-e-ensaios/item/190-o-corpo-feminino-da-na%C3%A7%C3%A3o.html

Fonte: Blog Maças Podres

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Egito, Tunísia e outras revoluções, mas onde estão as mulheres?

Começamos 2011 acompanhando as reviravoltas políticas no mundo árabe, com destaque significativo para as mobilizações da Tunísia e do Egito contra os governos ditatoriais que ali estavam implantados há decadas nestes países. Notícias sobre as mobilizações conseguimos de todas as formas, fosse pelos meios alternativos como blogs e redes sociais – mesmo que, no caso do Egito, Mubarak tenha desplugado o país do mundo – ou pela grande mídia. As informações sobre os acontecimentos no mundo árabe estavam chegando, fosse com uma leitura mais pró-EUA e Israel normalmente evidenciada pela grande mídia tendo como principal vetor a vênus prateada, fosse informações mais relacionadas com as mudanças reivindicadas pelos povos destes países e estas normalmente obtidas por sites anti-capitalistas, blogs e redes sociais.

Porém há uma dificuldade real de se encontrar textos, matérias, posts sobre o papel da mulher nestes processos, óbvio que na grande mídia este tipo de abordagem não teria espaço, visto que estes meios de comunicação pretendem continuar com o status quo, porém a dificuldade também se encontra nos meios alternativos, infelizmente a história ainda é escrita sob a ótica dos homens e a nossa importância nos processos históricos, muitas vezes decisiva, é colocada de lado. Como disse, não é de hoje, na verdade se formos lembrar de momentos históricos onde houve organização da classe trabalhadora para derrubada de poder veremos que as mulheres estiveram presentes fortemente e muitas vezes foram estopim para marcos importantíssimos da luta contra o capital e pela democracia.

23 de fevereiro (8 de março no calendário russo), era o dia internacional das mulheres estava programado atos, encontros etc. Mas não imaginávamos que este “dia das mulheres” viria a inaugurar a revolução. Estava planejado ações revolucionárias mas sem data prevista. Mas pela manhã, a despeito das diretivas, as operárias têxteis deixam o trabalho de várias fábricas e enviam delegadas para solicitarem sustentação da greve… o que se transforma em greve de massas…. todas descem às ruas. (TROTSKY, Leon. História da Revolução Russa)

Sempre fomos um pouco espevitadas, até por que ainda somos nós mulheres e principalmente as negras as mais pobres entre os mais pobres, então faz sentido nos mobilizarmos e termos forjado nossa luta dentro da perspectiva anti-capitalista por conta da nossa exploração e opressão. Tivemos participação importante na Revolução Francesa – mesmo que depois os homens tenham nos negado os mesmo direitos assegurados a eles -, Comuna de Paris, Revolução Russa, nas lutas contra diversos regimes militares na América do Sul, processos com características diferentes, mas que contaram com o não menos importante protagonismo político das mulheres fosse na organização de protestos ou mobilização.

As mulheres do povo nas províncias de Delfinado e da Bretanha foram as primeiras a atacar a monarquia. (…). Participaram nas eleições dos deputados para os Estados Gerais e seu voto foi reconhecido unanimemente. (…). As mulheres de Angers redigiram um manifesto revolucionário contra o domínio e a tirania da casa real, e as mulheres proletárias de Paris participarama na tomada da Bastilha, onde penetraram com as armas na mão. Rose Lacombe, Luison Chabry e Renée Ardou organizaram uma manifestação de mulheres que se dirigiu a Versalhes e levaram Luís XVI a Paris sob restrita vigilância. (…). As peixeiras do mercado mandaram especialmente uma delegação aos Estados Gerais para ‘animar os deputados e lembrar-lhes das reivindicações das mulheres’. ‘Não se esqueçam do povo!’, gritou a delegada aos 1200 membros dos Estados Gerais, ou seja, à Assembléia Nacional Francesa. (…). Porém, muito tempo após a consolidação da revolução, a memória das ‘cruéis e sanguinárias’ tecelãs assombravam as noites da burguesia. Quem eram, pois, essas tecelãs, essas fúrias, como faziam questão em chamá-las os aprazíveis e pacíficos contra-revolucionários? Eram artesãs, camponesas, operárias em domicílio ou de manufaturas, que odiavam a aristocracia e o Ancien Régime de todo coração e com todas suas forças. Frente ao luxo e ao esbanjamento da nobreza arrogante e ociosa, reagiram com um instinto de classe seguro e apoiaram a vanguarda militante por uma nova França, em que homens e mulheres tivessem direito ao trabalho e onde as crianças não morressem de fome. Para não perderem tempo inutilmente, essas honradas patriotas e essas zelosas operárias continuaram tricotando suas meias, não só em todas as festas em todas as manifestações, mas também durante as reuniões da Assembléia Nacional, bem como aos pés da guilhotina, ao assistir execuções capitais. Por outro lado, não tricotavam essas meias para si mesmas, mas para os soldados da Guarda Nacional – convertidos em defensores da revolução. (KOLLONTAI, Alexandra. Mulher, história e sociedade. Sobre a libertação das mulheres)

Devido a este histórico importante da participação das mulheres nas principais mobilizações mundiais que a falta de imagens, relatos, matérias e afins sobre a participação das mulheres nos processos árabes e esta preocupaçãoapareceu pela blogosfera de maneira até mesmo tímida e sem grande alarde como as outras notícias relacionadas aos processos árabes.

Não me espanta a participação das mulheres nas revoluções democráticas que vem se desenhando pelo mundo árabe, justamente por tudo já apresentado aqui, na verdade os acontecimentos no Egito e Tunísia nos mostram o quanto com o avanço da consciência da população também influe no avanço da consciência em relação as diferenças de gênero, as mulheres foram pra rua nestes países e a prova de sua importância é a de que não houve registro de abusos por parte dos manifestantes pra cima delas. Tanto na Tunísia quanto no Egito as mulheres tem ajudado a organizar as manifestações, a levar pessoas pra rua e muitas vezes ajudar aqueles que por algum motivo se ferem durante as manifestações, na Tunísia havia uma relação importante entre o movimento feminista e as demandas de um estado democrático e laico e esta é uma preocupação real do movimento feminista tunísio, pois garantir a separação entre política e religião é imprecindível para que avancemos na discussão dos direitos das mulheres.

Se na Tunísia a participação das mulheres em peso, ajudando a organizar as manifestações e lutar pela democratização do estado era esperada por conta da história do movimento feminista no país, no Egito a participação foi encarada como uma surpresa, justamente por conta do medo de que houvesse assédio contra as mulheres durante as manifestações, há uma noção de que este processo de mobilização no Egito não colocam uma pedra no machismo ali existente, mas é parte importante para o avanço do debate sobre o papel das mulheres na sociedade e na nova configuração de regime que ali aparece.

So why are women so much more involved in this protest, called “The Day of Anger,” than in previous demonstrations against the Egyptian government? The Facebook-initiated groups are unaffiliated with a major opposition group. These protests also seemed safer. Organizers urged those attending to make it a peaceful one, and this became a rallying cry in some areas of the city on Tuesday. Moreover, Egypt’s educated youth, men and women, were fed up with a government that had not changed at all in most of their lifetimes, and which cuts even the educated off from any opportunity. And then there was Tunisia. Suddenly, attending the protest seemed not only worth the risk, but capable of inciting real change. (KRAJESKI, Jenna.Women are substancial of egiptian protests)

Então por que as mulheres estão muito mais envolvidas neste protesto, chamado “Dia da Ira”, que em manifestações anteriores contra o governo egípcio? Os grupos que se formaram no Facebook não são filiados a grandes grupos de oposição. Estes protestos também pareciam mais seguros. Os organizadores exortaram os participantes do protesto para torná-lo pacífico, e isso se transformou em um grito de guerra em algumas áreas da cidade, na terça-feira. Além disso, os jovens educados do Egito, homens e mulheres, estavam cansados de um governo que não havia mudado durante a maior parte de suas vidas, e que até mesmo cortava aqueles educados de qualquer oportunidade. E então houve a Tunísia. De repente, participar do protesto parecia não só valer a pena o risco, quanto ser capaz de incitar uma verdadeira mudança. (TSAVKKO, Raphael. Tradução do Global Voices)

Não é de hoje que a participação das mulheres em grandes momentos históricos é deixada de lado, mesmo sendo parte importante dos processos, a falta de informações e cobertura da mídia sobre a participação destes atores nas revoluções democráticas da Tunísia e Egito só deixa cada vez mais claro o quanto ainda é preciso avançar para combater o machismo tão arraigado na sociedade, mas também nos mostra o quanto em um processo revolucionário a igualdade se impõe e as mulheres protagonizam embates importantes nestes momentos. Mas infelizmente ainda são colocadas à sombra, mesmo que vejamos imagens fantásticas como a deste vídeo abaixo:

Estamos a frente das mobilizações que no caso da Tunísia depôs Ben Alí e no Egito cada dia mais a permanência de Mubarak é insustentável e estas vitórias tem participação massiva das mulheres, mas somos esquecidas nos relatos, moções e imagens que por aí são veiculadas, a história continua a não contar o papel das mulheres, assim como o jornalismo e a militância. As mulheres do mundo árabe precisam e devem ser lembradas por encampar tão importante luta, pois sem elas as mobilizações não teriam o peso que tem, não haveria tantos protestos organizados. Apesar das dificuldades há imagens fortes e significativas da participação feminina nas manifestações egípcias e tunísias que podem ser vistas respectivamente aqui e aqui.

Este texto só saiu por conta das indicações de textos do Raphael Tsavkko e do Lucas Morais.

Fonte: Blog Bidê Brasil

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Feminismo Indígena no México

Diferentes formas de ser mulher:
Diante a construção de um novo feminismo indígena?
Por: Aída Hernández Castillo Salgado

Há dez anos seria impensável falar da existência de um feminismo indígena no México, no entanto, a partir do levantamento zapatista iniciado em 1 º de janeiro de 1994, podemos ver surgir no âmbito nacional um movimento de mulheres indígenas que está lutando em diversas frentes. Por um lado, as mulheres indígenas organizadas uniram suas vozes ao movimento indígena nacional para denunciar a opressão econômica e o racismo que marca a inserção dos povos indígenas no projeto nacional. Ao mesmo tempo estas mulheres lutam no interior de suas organizações e comunidades para mudar aqueles elementos da tradição que as excluem e as oprimem. As demandas destas mulheres e de suas estratégias de luta nos levam a considerar esta luta como o surgimento de um novo tipo de feminismo indígena, que mesmo coincidindo em alguns pontos com as demandas de setores do feminismo nacional, têm ao mesmo tempo diferenças substanciais.
O contexto econômico e cultural em que as mulheres indígenas foram construindo as suas identidades de gênero marca as formas específicas que tomam suas lutas, suas concepções sobre dignidade da mulher e suas formas de fazer alianças políticas. As estratégias de lutas destas mulheres estão determinadas pela sua identidade de etnia, de classe e de gênero. Elas preferiram incorporar-se à luta do seu povo, criando ao mesmo tempo espaços específicos de reflexão sobre as suas experiências de exclusão como mulheres e como indígenas.
(TRECHO EXTRAIDO) Antecedentes das lutas atuais
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Do “feminismo” aos feminismos:
Embora a construção de relações mais equitativas entre homens e mulheres tornou-se em um ponto medular na luta das mulheres indígenas organizadas, o conceito de feminismo não foi reivindicado dentro de seus discursos políticos. Este conceito continua sendo identificado como o feminismo liberal urbano, que para muitas delas tem conotações separatistas que as afastam de sua necessidade de uma luta conjunta com os seus companheiros indígenas. Aqueles que chegaram ao feminismo depois de uma experiência de militância em organizações de esquerda sabem que a força ideológica que tiveram os discursos que representam ao feminismo como uma “ideologia burguesa, separatista e individualista” que separa às mulheres das lutas por seus povos. As experiências do feminismo liberal anglo, que de fato, partiram de uma visão muito individualista dos “direitos dos cidadãos”, foram utilizadas para criar uma representação homogeneizadora do “feminismo”.
A luta dos múltiplos feminismos mexicanos que se foram gestando nas últimas décadas em parte consistiu em apropriar-se desse conceito e fazer com que adquira um novo sentido. A reivindicação de um “feminismo indígena” somente será possível na medida em que as mulheres indígenas lhe dêem um sentido próprio ao conceito de feminismo e o encontre útil para criar alianças com outras mulheres organizadas. Por agora, muitas das suas demandas, tanto as dirigidas ao Estado quanto as suas organizações e comunidades, visam a reivindicar “a dignidade da mulher” e a construção de uma vida mais justa para todos e todas. A Lei Revolucionária de Mulheres, promovida pelas militantes zapatistas, é um dos múltiplos documentos que expressam estas novas demandas de gênero.
Dita lei consta de dez pontos entre os que se encontram o direito das mulheres indígenas à participação política e aos postos de direção, o direito a uma vida livre de violência sexual e doméstica, o direito de decidir quantos filhos ter e cuidar, o direito a um salário justo, o direito a escolher com quem casar-se, a bons serviços e a educação, entre outros direitos. Embora nem todas as mulheres indígenas conheçam esta Lei em detalhe, o fato de saber que existe tornou-se um símbolo de possibilidades de uma vida melhor para as mulheres.Estas novas demandas de gênero foram expressas de diferentes formas em Foros, Congressos e Oficinas, organizadas a partir de 1994, e questionam tanto as perspectivas essencialistas do movimento indígena, que apresentava às culturas mesoamericanas como harmônicas e homogêneas, como os discursos generalizantes do feminismo que põem ênfase no direito à igualdade desconsiderando a forma com que a classe e a etnia marcam a identidade das mulheres indígenas.
Diante do movimento indígena, estas novas vozes questionaram as perspectivas idílicas das culturas de origem pré-hispânica, discutindo as desigualdades que caracterizam as relações entre os gêneros. Também pôs em discussão a dicotomia entre tradição e modernidade que o indigenismo oficial vem reproduzindo e que o movimento indígena independente concorda em parte. Segundo esta dicotomia há duas opções: permanecer mediante a tradição ou mudar através da modernidade. As mulheres indígenas reivindicam o seu direito à diferença cultural, e também, demandam o direito de mudar aquelas tradições que as oprimem ou excluem: “Também devemos pensar o novo a ser feito em nossos costumes, a lei somente deveria proteger e promover os usos e costumes que as mulheres, comunidades e organizações analisem se são bons. Os nossos costumes não devem prejudicar a ninguém”.
Paralelamente, as mulheres indígenas estão questionando as generalizações sobre “A Mulher” que foram feitas no discurso feminista urbano. Ao querer imaginar um frente unificado de mulheres contra o “patriarcado”, muitos estudos feministas negaram as especificidades históricas das relações de gênero nas culturas não ocidentais. Neste sentido, é importante retomar a crítica que algumas feministas negras fizeram ao feminismo radical e liberal dos Estados Unidos por apresentar uma visão homogenizadora da mulher, sem reconhecer que o gênero vai se construindo de diversas formas em diferentes contextos históricos.

A brecha cultural entre mestiças e indígenas:
Considero que às feministas urbanas nos tenha faltado sensibilidade cultural em muitas ocasiões das mulheres indígenas, assumindo que nos une a elas uma experiência comum frente ao patriarcado. Esta falta de reconhecimento das diferencias culturais vem dificultando a formação de um movimento amplo de mulheres indígenas e mestiças. Uma das tentativas frustradas de formação deste movimento foi a Convenção Estadual de Mulheres Chiapanecas formada em setembro de 1994.Antes da realização da Convenção Nacional Democrática, convocada pelo EZLN, mulheres de ONGs, de cooperativas produtivas e de organizações campesinas, reuniram-se para elaborar conjuntamente um documento que foi apresentado na reunião de Aguascalientes, onde estão expostas as demandas específicas das mulheres chiapanecas. Este foi o gérmen da Convenção Estadual de Mulheres Chiapanecas, um espaço heterogêneo no aspecto cultural, político e ideológico.
Mulheres mestiças urbanas de ONGs, feministas e não feministas e de Comunidades Eclesiais de Base, nos reunimos com mulheres monolíngües dos Altos, sobre tudo tzeltales e tzotziles; com tojolabales, choles e tzeltales, da selva, e com indígenas mames da Serra. Esta organização teve uma vida curta, somente conseguimos realizar três reuniões ordinárias e uma especial, antes da dissolução da Convenção.
Fica de pé a tarefa de realizar uma reconstrução histórica deste movimento, que estude criticamente as estratégias do feminismo urbano para criar pontes de comunicação com as mulheres mestiças. É notável que tenham sido as mulheres mestiças, mesmo sendo minoria, as que assumiram postos de liderança em uma hierarquia interna não reconhecida. Muitas das mulheres integrantes da Convenção foram convidadas pelo EZLN como assessoras ou como participantes na mesa sobre “Cultura e Direitos Indígenas”, que se realizou em 1995 em San Cristóbal de las Casas, onde se integrou uma mesa especial sobre a “Situação, direito e cultura da Mulher Indígena”. Nesta mesa, as assessoras mestiças encarregadas dos relatórios deixaram de colocar as detalhadas descrições das mulheres indígenas sobre os problemas corriqueiros, incluindo somente as demandas gerais de desmilitarização e as críticas ao neoliberalismo. É a partir destas experiências corriqueiras, que foram apagadas dos relatórios e memórias de encontros, que as mulheres indígenas construíram as suas identidades de gênero de uma forma diferente à das feministas urbanas.
Só aproximando-nos de estas experiências poderemos entender a especificidade de suas demandas e de suas lutas. Depois destas experiências, não surpreende que, em outubro de 1997, quando se realizou o Primeiro Congresso Nacional de Mulheres Indígenas, as participantes decidiram que as mestiças somente poderiam participar como observadoras. Esta decisão foi chamada de “separatista” e incluso de “racista” por parte de algumas feministas, que por primeira vez foram silenciadas pelas mulheres indígenas. Argumentos similares aos que são usados contra as mulheres quando demandamos um espaço próprio ao interior das organizações políticas. É importante reconhecer que as desigualdades étnicas e de classe influenciam, mesmo sem más intenções, quando as mulheres mestiças, com um domínio maior do idioma oficial e da leitura e da escrita, tentam a hegemonizar adiscussão quando nos referimos a espaços conjuntos. Por isso, é fundamental respeitar a criação de espaços próprios e esperar o momento propício para a formação de alianças. As mulheres purépechas, totonacas, tzotziles, tzeltales, tojolabales, mazatecas, cucatecas, otomíes, triquis, nahuas, zapotecas, zoques, choles, tlapanecas, mames, chatinas, popolucas, amuzgas e mazahuas, reunidas em Oaxaca neste primeiro encontro nacional de mulheres indígenas, vivem os seus próprios processos, que nem sempre coincidem com os tempos e agendas do feminismo urbano.
Um exemplo desta brecha cultural existente entre mestiças urbanas e indígenas foram as fortes críticas que algumas feministas fizeram à Segunda Lei Revolucionária de Mulheres, propostas pelas indígenas zapatistas, por ter incluído um artigo que proíbe a infidelidade. Esta modificação da Primeira Lei Revolucionária de Mulheres foi considerada uma medida conservadora produto da influência da Igreja nas comunidades indígenas. Estas precipitadas críticas devem contextualizar esta demanda das mulheres indígenas dentro de uma realidade na qual a infidelidade masculina e a bigamia são justificadas culturalmente em nome da “tradição”, e se encontram estreitamente vinculadas com as práticas de violência doméstica. Uma proibição que para as mulheres urbanas pode resultar moralista e retrograda, talvez para algumas mulheres indígenas seja uma forma de rejeitar uma “tradição” que as deixa vulneráveis no interior da unidade doméstica e da comunidade.
Acontece o mesmo no referente à legislação em torno à violência doméstica. As feministas urbanas de Chiapas lutaram durante vários anos para conseguir que a penalização para os esposos violentos fosse maior, conseguindo finalmente que em 1988 o artigo 122 do Código Penal fosse modificado, aumentando a penalização em casos de violência doméstica. Agora as mulheres indígenas que carecem de independência econômica são diretamente afetadas pelo castigo que a lei impõe aos seus maridos, ao ficarem sem o apoio econômico durante o tempo que ele esteja na cadeia. Algo semelhante acontece com o referente ao direito ao patrimônio e à pensão alimentícia para as mulheres indígenas. A luta legislativa serve de pouco ou quase nada quando os esposos não possuem terra e trabalho fixo.
Vale a pena retomar a proposta de Chandra Monhanty nesta luta em contra a violência doméstica em contextos multiculturais. Ela diz que “A violência masculina deve ser teorizada e interpretada dentro de sociedades específicas, para assim podermos entendê-la melhor e assim nos organizarmos de forma mais efetiva na luta contra ela” (Monhanty 1991:67).
Se o reconhecimento das semelhanças entre as mulheres nos permite criar alianças políticas, o reconhecimento das diferenças é requisito indispensável para a construção de um dialogo respeitoso e para buscar estratégias de luta que estejam em sintonia com as diferentes realidades culturais. Talvez a construção deste diálogo intercultural, respeitoso e tolerante, contribua à formação de um novo feminismo indígena baseado no respeito às diferenças e deixando as desigualdades. Artículo tomado de CEMHAL Centro de Estudos da Mulher na História de América Latina.
Fonte: Blog Maçãs Podres